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Mostrando postagens de outubro, 2022

Para além dessa árvore

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Fora anunciado que ele chegaria. Todos se apressavam, passavam pelas ruas e esquinas perguntando qual seria o local exato. Algo em mim queria tanto vê-lo... mas por quê? O que indicaria que ele seria diferente dos demais? Dessa gente que já não ia com minha cara, dessa gente que para a vida me fazia barreira... Mas sim, eu queria vê-lo. Me disseram que ele era homem, mas não qualquer homem. Me falaram do seu olhar, me falaram do seu jeito de tocar o corpo, de dar vida, de pôr ao sufoco um fim. Eu queria vê-lo, sim. Mas como vê-lo se todos já faziam fila? Preparavam, em alto e bom som, as ofertas que queriam lhe apresentar. Já eu, nada tinha a lhe dar. Além do meu toque, do meu corpo, do meu olhar, nada me sobrava. Tão rico do dinheiro por aí recolhido, mas, para dizer a verdade, tão pobre de todo o resto. Não, não é que em mim só havia pecado. Não, não é que de mim só se poderia esperar o amargor, a opressão, o imposto. Em mim havia tanta coisa... mas essa gente não via, eu tampouco sa...

Liberdade, memória, entendimento, vontade...

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Sossega, amigo, Na reminiscência dessa liberdade, Outrora vermelha como o sangue Que não mais ousas provar, Pois te batem à porta as lembranças E te mostram toda a distância Em leito aberto a se sepultar. Sossega, amigo, Pois ainda não coberta de flores Tua memória exaurida. Se mal acordado te aventuras, No descampado de passada vida E se te é de algum proveito O que os olhos ainda observam, Então deixa de lado os temores, Pois tua herança é maior Do que a máscara que porta Irredimíveis dores. Sossega, amigo, No entendimento da tua história. Faz da entrega, do sangue,  Do corpo, a tua maior glória. Observa bem os teus sapatos, Observa bem o que te incomoda, Se os elos distendidos da tua pátria, Se as árvores, se o teu amor No calibre das sequoias.  Sossega, amigo, Na ocasião plena das vontades. Mas que sejam tuas As vontades que procuras. E enquanto não te cobrirem as flores, E pelo tempo em que ainda existirem A liberdade, a memória,  O entendimento, a vontade, Viver ser...

Nos chama alguém!

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  (Foto tirada por mim, ainda em 2017, em alguma rua da cidade de Victoria, no Canadá) Nos chama alguém! Por que te vais Se o caminho é tão longo Se por aqui ainda há trabalho E sobram memórias, gostos, Prazeres? Por que te vais Se quando te vais Os olhos estão marejados E irrompem as lágrimas, Se ontem a felicidade Te acolhia como menino Em peito de mãe? Por que te vais Do lar, do balanço na rede, Pela porta estreita Que ora alargas  Com tua forma de ser De existir, de amar? E, ainda assim, te vais. Eu, logo menos, também. Pois que nos comove a semente  Que do fruto se despede E o seu adeus que antecipa Uma vida de seivas,  Ramos e raízes. Sim, meu amigo, Eu bem entendi: Vamos depressa, Nos chama alguém!

Da casa

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("Casas".1960. Arcangelo Ianelli. Óleo sobre tela, c.i.d. 80,00 cm x 60,00 cm) Da casa I Antes fosse uma avalanche, Ou as ruínas após anunciados tremores, Os escombros desta casa a cinco. Onde não é torpe ou ingênua, A tua necessidade de ir, Antes um adágio ao que resta Entre as flores que ainda crescem, Apesar dos espólios e dos caminhos. Onde a vida e o tempo de viver, E tudo o que não escolheste, O vazio, os pés descalços, o ermo, São impostos em testamento à revelia de ti mesmo. Para que enfim recobrasse o teu êxodo,  Para que, onde tudo jaz o seu fim, Talvez o teu soturno começo. II Alguém estava sob o pé de jambo, Alguém coletava as frutas, alguém  Se deitava no tapete rosa de pétalas No quintal de uma casa  Que não era tua, as frutas  De outro dono, as pétalas  De outra terra. III Não sobraria um grão de poeira Daqueles espalhados No retrato dos parentes. Não sobraria a fome, A voracidade de um fim, Ou a anunciação de um anjo Onde o sol retoca a sombra De...

O conteúdo do coração

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  (Foto tirada por mim, em uma câmera analógica emprestada) Heart’s content. O conteúdo do coração. Era 2016 ou 2017, os quarteirões “new age” da cidade pulsavam com incensos, mantras, mandalas, zen-budismo. E, no meio disso tudo, o conteúdo do coração em uma foto, como se um clique fosse o suficiente para fixar de uma vez por todas o que bate, o que só para no último suspiro. Nada fixa o coração, é certo, e há fotos que, ao invés de funcionarem como recordações de pulsações antigas, surgem como pistas de um futuro - ou mesmo de um presente - em que a vida obriga o coração a se expandir e a acolher até mesmo aquelas batidas que escapam do incansável ritmo das sístoles e das diástoles. É que há mais no coração do que a carne e do que o sangue: há uma liberdade que cresce e que, aos poucos, toma o lugar das arqueologias e das pulsações de um passado que se torna memória agradecida. O conteúdo do coração vai, assim, se revelando diante de uma Presença constante que passo a testemunhar...

Travessia e palavras

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  (Arcangelo Ianelli - Sem título. Pastel sobre cartão) “Deus se esgota, através da espessura infinita do tempo e do espaço, para atingir a alma e seduzi-la. Se ela deixar arrancar de si um consentimento puro e completo, mesmo que isso não dure mais do que o tempo de um raio, então Deus a conquistou. E, uma vez que ela tenha se tornado uma coisa inteiramente dele, ele a abandona. Ele a deixa completamente só. E cabe a ela atravessar, às apalpadelas, a espessura infinita do tempo e do espaço, em busca daquele que ela ama. É assim que a alma refaz, no sentido inverso, a viagem que Deus fez em direção a ela. E isso é a cruz”.   Simone Weil, “O Peso e a Graça”, p. 123.   “Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E esta é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, ...

Pelos mais de dez leprosos que eu também sou

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(Foto tirada por mim, em uma praia do Pacífico. Algo existe em comum entre as profundezas do mar e os leprosos que descobrimos nas profundezas do que somos) Os leprosos não são apenas aqueles às margens da sociedade, os destituídos e espoliados de bens. Se fosse assim, seria mais fácil: eu não seria um deles e poderia me tranquilizar um pouco mais. Há, contudo, a lepra que ultrapassa a categoria sociológica e que me surpreende em meus momentos de oração. É a lepra que habita internamente, são os homens leprosos que têm morada em mim, que me causam vergonha e que procuro silenciar. São eles as minhas vítimas preferidas, excluídos e marginalizados pela minha insistência em consertos e ajustes definitivos. Há o leproso ansioso, que planeja até mesmo o implanejável, à procura de respostas que não existem; há o leproso ressentido, aquele que se surpreende com as curvas da vida e que é vítima de sua própria memória; há o leproso entristecido, que tantas vezes apela a uma cama e a um cobertor...