O conteúdo do coração

 

(Foto tirada por mim, em uma câmera analógica emprestada)


Heart’s content. O conteúdo do coração. Era 2016 ou 2017, os quarteirões “new age” da cidade pulsavam com incensos, mantras, mandalas, zen-budismo. E, no meio disso tudo, o conteúdo do coração em uma foto, como se um clique fosse o suficiente para fixar de uma vez por todas o que bate, o que só para no último suspiro. Nada fixa o coração, é certo, e há fotos que, ao invés de funcionarem como recordações de pulsações antigas, surgem como pistas de um futuro - ou mesmo de um presente - em que a vida obriga o coração a se expandir e a acolher até mesmo aquelas batidas que escapam do incansável ritmo das sístoles e das diástoles. É que há mais no coração do que a carne e do que o sangue: há uma liberdade que cresce e que, aos poucos, toma o lugar das arqueologias e das pulsações de um passado que se torna memória agradecida. O conteúdo do coração vai, assim, se revelando diante de uma Presença constante que passo a testemunhar nas fotografias da minha vida, nos dias de zen e de incenso, nas noites frias e de tempestade. Em tudo o coração, em tudo a Presença que o alimenta e que o faz ir adiante: o próprio sangue da vida, o sangue derramado em sinal de salvação, o sangue que brota como flores vermelhas nos átrios do coração.


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