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Deus contra Deus

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A tribulação é o lugar de onde provém o discurso acerca de Deus. São as pessoas aflitas, violentadas, massacradas, sob provação, as que conseguem falar de um Deus que é igualmente oprimido, o Deus que, desnudo, pende sobre o madeiro da Cruz. Porque se buscamos sinais de Deus na natureza ou no fluir dos eventos do mundo, se procuramos vestígios de Deus na beleza estonteante de paisagens e na sedução do capital que orienta as relações (des)humanas, logo depois nos damos de cara com o câncer (tão natural quanto as montanhas mais belas) e com a miséria. A imagem de um Deus tirano é o retrato que resulta dessas observações ingênuas. Condenação e aflição povoam o imaginário quando a doença da natureza e o desmando das interações sociais parecem mais falar de uma divindade aterrorizadora que de um Deus que é amor. Porque fora da Revelação nada há que fale de misericórdia. Fora da Revelação é o terreno do toma-lá-dá-cá, do suum cuique (a cada um, o seu), do aut poena aut satisfactio (ou pu...

Antissemitismo à luz de George Steiner

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No livro “A Long Saturday: Conversations”, George Steiner, um dos maiores críticos literários da contemporaneidade, concedeu uma extensa e interessante entrevista à jornalista Laura Adler. Diante do pernicioso antissemitismo que se alastra no mundo - uma praga da qual, em verdade, nunca nos vimos inteiramente livres - e também em face do genocídio cometido contra os palestinos de Gaza e da Cisjordânia pelas cruentas mãos de Netanyahu e dos seus ministros eugenistas, trago uma tradução livre de um dos trechos mais fascinantes da entrevista. «GEORGE STEINER: Em três instâncias o judaísmo manteve a humanidade sob cativeiro da maneira mais tormentosa possível. Primeiramente, com a Lei Mosaica. O monoteísmo é a coisa menos natural no mundo. Quando os antigos gregos diziam existir dez mil deuses, essa afirmação era natural, lógica, encantadora; os seus deuses habitavam o mundo com beleza, com reconciliação. Os judeus responderam, porém: “Inimaginável! Não se pode ter uma imagem de Deus. Dele...

O amigo dos afogados

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  ( Jorge Cocco , Santangelo) Eu estava experimentando um momento de melancolia pandêmica quando escutei, pela primeira vez, a canção Suzanne , de Leonard Cohen. Naquela noite, perdido na angústia de não saber como seria o dia de amanhã (e se os meus pais pegassem Covid? e se eu ficasse doente? e se fosse necessário ir ao hospital?), a suavidade da canção me trazia um relaxamento que há algum tempo eu já não experimentava. A retrospectiva do Spotify não me deixaria mentir: Leonard Cohen é um dos cantores que eu mais amo. Contudo, não é verdade que, em meio à imensidão das nossas playlists, entre tantas alternativas, informações e estímulos, raramente mergulhamos no que a canção tem a nos dizer? No caso de Suzanne , a letra escrita pelo cantor judeu passou a fazer parte da minha experiência de Deus. No programa The Late Show , mais ou menos em setembro desse ano, Stephen Colbert entrevistou Nick Cave acerca do seu novo álbum, Wild God . Em determinado momento da entrevista, ...

Deus. Sem recompensas.

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(Jó e a acusação de seus amigos teólogos) No livro «Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente», Gustavo Gutiérrez propõe a elaboração de um discurso acerca de Deus que vise superar os paradigmas comuns de merecimento e punição, castigo e recompensa. Segundo o teólogo peruano, podemos achar pistas importantes para a confecção desse discurso a partir da experiência dos pobres e marginalizados das sociedades latino-americanas, já que, segundo aponta o documento de Puebla, «os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem» (1142). A experiência dos pobres, portanto, é indicativa de que a relação do humano com o Criador não está pautada em um rudimentar jogo de ações e recompensas, mas sim na gratuidade da bondade de Deus, porquanto «a base primeira da preferência de Deus pelos pobres deve ser encontrada na própria bondade de Deus e não em uma análise social ou da compaixão humana» (GUTIÉRREZ, 1987, p. 13), muito menos em um es...

Creio em Deus

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Crer é um ato da experiência, uma experiência que nem sempre pode ser analiticamente explicável ou empiricamente demonstrável, o que não quer dizer que não se trate de uma experiência racional. De qualquer modo, há camadas e camadas de linguagem, signos, vivências, emoções, sinapses neurais, respostas do corpo, que fizeram com que a minha experiência de fé se movesse em um ou em outro sentido. Ao mesmo tempo, a experiência de Deus não é só minha, não é determinada ou determinável apenas por aquilo que constitui a minha subjetividade, os meus gostos, as minhas opiniões. Há um poema atribuído ao Meister Eckhart, místico dominicano do século XIII, que diz que «Deus não é aquilo que tu pensas, nem mesmo aquilo que tu crês, porque Deus é uma palavra não dita, um pensamento não pensado, uma crença não crida». Deus, portanto – e aquilo que Ele faz a humanidade experimentar de Si –, ultrapassa as minhas categorias de pensamento, vai além da minha capacidade de cognição. Ainda assim, é nessa ca...