Coração
CORAÇÃO Já era noite quando chegou ao meu quarto, E me fitou por um tempo, Mesmo que eu não quisesse mirá-lo. É que me pensei indigno de visita, Pensei que meu coração fosse estreito Para todo aquele amor. Que minha cama seria lugar triste Se ainda tão cheia de dor. O que vens fazer então, Senhor? Me respondeu, com olhar de esperança, Que queria adentrar o coração. Queria lavá-lo, Queria amá-lo, Me queria inundado da Vida Que portava em suas mãos. Lhe mostrei tudo, Mesmo que Ele já soubesse De tudo o que ali havia. Lhe mostrei as partes largas, Cheias de gente, de nomes De coragem. Lhe mostrei as minhas barcas Dispostas pelo rio da vida E os repousos em sua margem. Lhe mostrei, também, O que a despedida estreitara. Mostrei as partes que, num repente, Se calaram, os amores sufocados, Os afetos desabrigados. Ele não se incomodou com a lágrima, Não repreendeu o meu choro De homem ferido. Pelo contrário, Enxugou o meu pranto com seus cabelos, Me pôs os chinelos, Me disse que ainda há...