Coração

 


CORAÇÃO

Já era noite quando chegou ao meu quarto,
E me fitou por um tempo,
Mesmo que eu não quisesse mirá-lo.
É que me pensei indigno de visita,
Pensei que meu coração fosse estreito
Para todo aquele amor.
Que minha cama seria lugar triste
Se ainda tão cheia de dor.

O que vens fazer então, Senhor?

Me respondeu, com olhar de esperança,
Que queria adentrar o coração.
Queria lavá-lo,
Queria amá-lo,
Me queria inundado da Vida
Que portava em suas mãos.

Lhe mostrei tudo,
Mesmo que Ele já soubesse
De tudo o que ali havia.
Lhe mostrei as partes largas,
Cheias de gente, de nomes
De coragem.
Lhe mostrei as minhas barcas
Dispostas pelo rio da vida
E os repousos em sua margem.

Lhe mostrei, também,
O que a despedida estreitara.
Mostrei as partes que, num repente,
Se calaram, os amores sufocados,
Os afetos desabrigados.

Ele não se incomodou com a lágrima,
Não repreendeu o meu choro
De homem ferido.
Pelo contrário,
Enxugou o meu pranto com seus cabelos,
Me pôs os chinelos,
Me disse que ainda há tantos caminhos,
Que ainda há tanta vida
Ao longo do rio que sigo...

E ali, no meio daquela visita,
Me senti amado:
O meu coração recolhido no abraço,
O meu coração tão consolado,
Por Aquele que, no tardar da noite,
Abriu a porta
Do meu trancado quarto.

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