Postagens

Mostrando postagens de junho, 2023

O Novo Ascetismo: Sexualidade, Gênero e a Busca por Deus (Sarah Coakley)

Imagem
    O amadurecimento da espiritualidade nos impele à ultrapassagem de dicotomias que em nada nos podem ajudar. São essas dualidades que, se às vezes úteis para delimitar a nossa visão de mundo, depois de um tempo atrofiam o pensamento e nos jogam em uma batalha sem vencedores. É a partir desse amadurecimento que a teóloga Sarah Coakley, integrante do clero da Igreja da Inglaterra, procura superar a dicotomia "repressão x libertinismo" que assola o a comunhão anglicana, e também o catolicismo, nas questões relativas à sexualidade humana e ao gênero.  A autora, longe de propor soluções absolutas, acredita que o único caminho possível para a superação de tal dualidade é a reconstrução de uma teologia do desejo que almeje a purificação e a vivência de um novo paradigma ascético. Ao fazer várias referências a Gregório de Nissa, Coakley afirma que a possibilidade de uma vivência ascética nada tem a ver com a mera negação do desejo, mas, antes disso, com a sua intensificação dia...

Lembrança de aniversário

Imagem
Ainda vale marcar a passagem e os seus ritmos, fazer caso dos momentos de alegria e de presença, ser chacoalhado e efervescer diante dos rituais que honram a vida, diante das ingenuidades que, por serem tão ingênuas, derretem o cinismo que a idade acumula, pois ainda vale cultivar por dentro uma vida que pulsa sem temer o esmorecimento da espera e ainda é bom encontrar os amigos e saber que naquele olhar tudo cabe, cabem as dúvidas, as contradições, as bandeiras ainda não fincadas cabem, tudo o que é vivo tem lugar no amor que não arreda o passo, naquele amor que testemunha o rodopiar dos anos e que oferece com ternura um coração transbordante de nomes e de rostos, e, por tudo isso, ainda vale, mesmo que por um breve instante, deixar de lado a sobriedade alvejada dos céticos para observar em silêncio o laço que repousa entre o amor demonstrado e aquele outro Amor que continua a crescer por dentro, para escutar profundamente o que disse Rilke ao Jovem Poeta: "acredite s...

Poemas de abril e maio

Imagem
I Hoje te desenterro em mim Vasculho os cascalhos  Da moradia do meu corpo Onde habitas em silêncio Em algum batimento Do que pulsa em segredo E o que poderiam ser pedras E o que em outras histórias Foram meus erros e teus conselhos Agora são de carne porosa Sensível ao toque dos teus dedos Sincero sentir Que me aveluda os anseios. Hoje te desenterro em mim E, para minha surpresa, O que era o túmulo onde jazias Transformou-se em jardim Em pólen que me fecunda Que me gesta alguma vida Que não terá fim. II Amigo Quem em outras noites Testemunhou os prazeres escondidos Sob o teu rosto lívido Já não se recorda do tempo Das tuas costas curvas Não se lembra Da hesitação dos passos incertos E da devoção adolescente Pela Senhora das Dores Quando não tinhas outras dúvidas Além dos mistérios Da tua carne pujante Dos teus medos e das tuas loucuras Se esqueceu também De um outro tempo de faltas Do dia em que chegou à tua porta A tentação do filho pródigo - Não do pródigo que se vai...