Poemas de abril e maio


I

Hoje te desenterro em mim
Vasculho os cascalhos 
Da moradia do meu corpo
Onde habitas em silêncio
Em algum batimento
Do que pulsa em segredo
E o que poderiam ser pedras
E o que em outras histórias
Foram meus erros e teus conselhos
Agora são de carne porosa
Sensível ao toque dos teus dedos
Sincero sentir
Que me aveluda os anseios.
Hoje te desenterro em mim
E, para minha surpresa,
O que era o túmulo onde jazias
Transformou-se em jardim
Em pólen que me fecunda
Que me gesta alguma vida
Que não terá fim.

II
Amigo
Quem em outras noites
Testemunhou os prazeres escondidos
Sob o teu rosto lívido
Já não se recorda do tempo
Das tuas costas curvas
Não se lembra
Da hesitação dos passos incertos
E da devoção adolescente
Pela Senhora das Dores
Quando não tinhas outras dúvidas
Além dos mistérios
Da tua carne pujante
Dos teus medos e das tuas loucuras
Se esqueceu também
De um outro tempo de faltas
Do dia em que chegou à tua porta
A tentação do filho pródigo
- Não do pródigo que se vai
Mas do filho que fica
E que é pródigo por não ousar
É pródigo da própria vida - 
E ainda agora
Quem contigo se queima em silêncio
Não te confidenciará a palavra amor
Não se deixará levar pela ternura 
Amigo
É hoje que decidirás 
Pelo novo dia que te amanhece
Ou pela antiga noite que te madruga.

III
(In memoriam)

Não coube na tua juventude
Tão vasta história.

Foi suspensa a promessa
Mas não encerrada
A tua presença que ainda cresce
Onde não se dissipa a memória.

A velhice que não terás
Pois que precipitado o tempo
Nós já a carregamos dentro
Mas não ousamos falar
Desacostumados
A sondar a nossa hora.

Mergulhas
- De nós
És o primeiro a saborear o pulo -
Mas a terra é rasa
E o dia de rasgar o túmulo
Não demora.

IV
Somente a escuridão
Nos separava.

Por tudo o que em mim doía
Devorei o fruto da noite alta.
O sumo derramado
Das paixões gozosas
Não escondeu o que definhava.

Uma primeira espada transpassada
Calejou as marcas da batalha
Sem desfiar o sono
Enrijecido nas minhas pálpebras
E mesmo nos olhares de caça
A tua presença se anunciava.

Mas ao te encontrar à mesa posta
Em tua cintura abraçada
Obscena como de costume
Somente uma lágrima escorreu calada
Do meu corpo o único perfume
A ungir os teus pés com os meus medos.

E o que eu te disse
Quando me descobri perdoada
Por tanto amar
Nesse império de afetos gastos
Permanece em segredo.

V
Quem mais vê
Nas minhas mãos vazias
O reflexo do inesperado
A alegria escondida
Que regozija fulgurosa vida
Sem que nada me seja dado?

Quem mais vê
No ritmo e na razão do percalço
Ou mesmo na queda e no cansaço
Ainda a minha sede furtiva
Um sinal de outras fomes mais antigas
Sem rastros de espólios
Já deixado o lar
E pulsante o espírito pródigo?

Quem mais vê
Nos riachos das minhas carências
A água caudalosa dos desejos
O rio que transborda em meu corpo
Nas horas de abandono
Pendente o teu consolo
Saudoso do teu amparo?

Quem mais poderá te chamar de Pai
E comigo degolar o novilho gordo
Na noite do meu retorno
Na hora do nosso abraço? 

VI
Vem de um dia perdido
Do rescaldo de sonhos detidos
O desejo que abrasa o gesto
E a coragem que refaz o laço.

Vem de uma noite ter reparado o lírio
A descoberta da pureza redimida
-Não a dos puros
Mas aquela dos vorazes agitos
Desavergonhados conflitos
Que povoam o coração ferido.

Vem de uma sedutora redenção
Ter de desatar com tuas mãos
O nó do meu destino.

VII
Não é mais a hora
De fincar as perdas.

Ao canto
Do que pensavas ser a morte,
Respingou a vida,
Esse resquício de chama,
Em tua quebrantada labareda.
Foste vencido, é verdade,
Destronado das tuas vaidades,
Mas ainda tens contigo
As tuas mãos

- No vazio que elas carregam,
O teu tesouro mais honesto:
Ainda escrevem
As tuas mãos.

VIII
Conseguimos tatear remotas histórias
Tramar vínculos que afastassem a emboscada
Conseguimos apaziguar em nossa fala
O calor retesado na memória
Conseguimos uma vez fracassar
Uma outra vez ser pródigos sem morada
Para que só depois habitássemos o instante
Em que as âncoras fossem novamente alçadas.
Conseguimos tanto
Mas arrefecer a caminhada
Deter o que incandescia por dentro
Isso não conseguimos
Nem quisemos.

IX
Para Etty

Te entristecia um pouco
A poeta não ter sido tu.

Querias apenas um verso
Uma palavra tua
Que pousasse em página outra
Que não a dos teus cadernos.

Em prece pedias
(Menina que aprendeu a se ajoelhar
A pedir e a amar)
No escondido do teu quarto pedias
Que nunca te faltasse uma estrofe
Que te acendesse a poesia.

Quando chegada a hora do teu abate
(Rumo à Polônia
Cantando embarcaste)
Portavas contigo Rilke
Dostoievski e os Evangelhos
E o trem não te arredou a esperança
Não te desperdiçou o ódio cego
O gás não esgarçou teu bom combate.

Não foste tu a poeta
(É mesmo verdade?)
Mas o desejo inscrito no teu peito
O que para mim chegou
Do teu coração que agora leio
Me permite dizer
Que a vida ainda vale.

X
Exigiram-nos um sinal
Que nunca quisemos dar.

Enredados em sonhos,
Deliramos não fazer parte
Da engrenagem que nos sucumbe.

Resistimos quando o desafio era não parar,
Alheios a fazer girar a antiga roda,
Resistimos no afã escaldante de dentro,
No segredo que ainda nos molha.

Para além desse deslumbre,
Demoramos,
Devagar moramos
E ninguém nos tira essa revolta.

XI
Mesmo o que te desolava
O tempo devorou
Agora já não há sombra
Nas tuas veredas repovoadas
Do elo distendido de tuas lágrimas
Só a complacência te restou...
Por isso continuas
Nesse passo que já é caminho
Nessa estrada que já é voo.

XII
Das urgências que te tocam,
Apenas isso importa:
Descer ao fundo.

Mesmo nu, homem desarmado,
Enquanto ainda é tempo,
És fiel ao que em ti foi semeado:
A mansidão desse momento
E ter aqui chegado
Para daqui partir.

E por tudo o que guardaste
Lá onde se desata teu destino,
Na remota terra ainda sem nome,
Onde o amor ergue teu mundo,
Com sinceridade poder dizer:
"Ainda longe,
Mas apenas por enquanto,
Desse sentir profundo".

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