Deus contra Deus



A tribulação é o lugar de onde provém o discurso acerca de Deus. São as pessoas aflitas, violentadas, massacradas, sob provação, as que conseguem falar de um Deus que é igualmente oprimido, o Deus que, desnudo, pende sobre o madeiro da Cruz. Porque se buscamos sinais de Deus na natureza ou no fluir dos eventos do mundo, se procuramos vestígios de Deus na beleza estonteante de paisagens e na sedução do capital que orienta as relações (des)humanas, logo depois nos damos de cara com o câncer (tão natural quanto as montanhas mais belas) e com a miséria.


A imagem de um Deus tirano é o retrato que resulta dessas observações ingênuas. Condenação e aflição povoam o imaginário quando a doença da natureza e o desmando das interações sociais parecem mais falar de uma divindade aterrorizadora que de um Deus que é amor. Porque fora da Revelação nada há que fale de misericórdia. Fora da Revelação é o terreno do toma-lá-dá-cá, do suum cuique (a cada um, o seu), do aut poena aut satisfactio (ou punição, ou adimplemento) (Westhelle). Mas é o próprio Deus que assume o resultado nefasto dos nossos princípios jurídicos, da nossa vaga noção de justiça.


Na Cruz, a estupenda troca da pena do crime humano pela carne fresca do Deus vivo subverte qualquer parâmetro de equidade. “Para nós, o que não é devido a nós, mas que vem como uma dádiva; aos outros, o que não é devido a eles, mas é livremente dado” (Lutero). Deus contra Deus é o fato de que o Senhor se coloca contra si em nosso favor. É a ironia do Deus que se entrega aos regimes caídos desta Época para nos revelar o mal a respeito do qual, de outro modo, permaneceríamos cegos. E esse mal nada mais é que as regras e as economias deste mundo, o xadrez do poder que subverte as custosas lições da Graça. E a ironia de Deus subsiste no fato de que Ele se equipara àqueles que se encontram desprezados pelo poderio desta Idade, se identifica com os que não têm palavras inteligíveis para a racionalidade dominante.


Assim, a Cruz - o lugar em que Deus se coloca contra Deus - é o locus do escândalo que desfaz o problema da boa obra (que nada mais é que a questão da economia) e o problema da lei (a questão da jurisprudência). A teologia da Cruz é a “absurdeza da proclamação” (1Cor, 1:21) que contesta o princípio epistemológico que nos rege. Na Cruz, Deus se revela como Deus em seu oposto (Moltmann). A sua presença se revela na morte do Cristo que foi abandonado por Deus; sua justiça se faz mostrar nos injustos; sua eleição resplandece nos condenados; a retidão da Graça, nos doentes, nos leprosos, nos que perambulam em suas errâncias (Moltmann). É por isso que Lutero dizia que ninguém é capaz de se tornar teólogo lendo Aristóteles (em franca oposição à dependência da teologia escolástica em relação às categorias aristotélicas): o trabalho do teólogo é o da subversão da epistemologia vigente, porque a racionalidade vigente é e sempre será aquela que transforma o inocente em bode expiatório a ser sacrificado (Girard).


Deus contra Deus é o desmantelo necessário das categorias idolátricas deste mundo. E tal desmantelo nada mais é que o lugar de tribulação comentado no início desse texto. Essa tribulação é sentida quando percebemos, por exemplo, o equívoco da analogia na descrição de Deus. Analogias como a do motor imóvel (Tomás de Aquino) pressupõem uma ontologia e uma metafísica que não correspondem ao escândalo da Cruz. A fé proveniente de tal escândalo “só é possível quando as evidências que apontam direta ou inequivocamente para o divino não existem, quando a analogia não mais impera, quando tudo o que vemos são as costas de Deus ou o ‘traseiro’ de Deus, como Lutero traduziu Êxodo 33.23” (Westhelle).


O que estou tentando sugerir é que o encontro com Deus não se dá na rigidez das categorias metafísicas e ontológicas; essas enganam porque oferecem discursos aparentemente certos, lógicos, silogísticos, quando a palavra da Cruz é a do absurdo, uma “palavra temerária e dissonante […] que não pode ser negociada no sistema, que não se encaixa na economia, nas regras dessa casa terrena” (Westhelle). Se, por um lado, a racionalidade epistemológica pode ser útil ao empreendimento de sistematizar o discurso a respeito de Deus, a experiência da Cruz (o sofrimento de Deus contra Deus) é aquela de encarar de frente o horror vacui, isto é, o esvaziamento de qualquer analogia, o terrível vazio que se faz mostrar nas misérias do nosso mundo. E é justamente através daquilo que é percebido como o abandono de Deus que Deus se faz presente. É a ironia (o jogo da substituição dos opostos) que revela uma palavra gratuita: perdido, mas achado; condenado, mas salvo.


E é precisamente essa ironia, - a subversão que transforma a morte do Senhor na Cruz em vida ressurrecta - é essa ironia, cuja aceitação é chamada de fé, que nos permite ver em todo sofrimento do mundo o rastro do Deus Conosco, Emanuel. Por isso, é aquele que discursa acerca de Deus em tribulação, em espanto, em provação, que é agraciado com as palavras dirigidas ao ladrão: “ainda hoje estarás comigo no paraíso” (Lc, 23:43).


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