Judas nosso de cada dia
E se o beijo dado no rosto nada tiver de ver com traição, a versão clássica da história com a qual nos acostumamos sem fazermos muita questão? Se, de repente, o que chamamos de traição, maldição, for apenas o desespero de quem está no centro da indefinição e que, por não aguentá-la mais, precisa enfim de um desfecho, pois qualquer coisa é melhor do que uma caminhada inacabada, do que uma esperança depositada onde os frutos demoram, do que um coração que é morada de esperas e de constantes derrotas. É preciso dar vazão à ebulição, e não foi em vão que o amigo à mesa lhe disse: "o que tens a fazer, faze-o depressa", que apesar dos nossos melhores esforços, não é para sempre que conseguimos carregar tanta esperança sem jamais pô-la à prova. E se, ao invés de trair o seu próprio Mestre, o que Judas realmente quisesse fosse armar uma confrontação final que levasse à definitiva vitória do seu amigo, reunir ali todos os inimigos para que o Mestre mostrasse sua força, faz...