E se o beijo dado no rosto nada tiver de ver com traição, a versão clássica da história com a qual nos acostumamos sem fazermos muita questão? Se, de repente, o que chamamos de traição, maldição, for apenas o desespero de quem está no centro da indefinição e que, por não aguentá-la mais, precisa enfim de um desfecho, pois qualquer coisa é melhor do que uma caminhada inacabada, do que uma esperança depositada onde os frutos demoram, do que um coração que é morada de esperas e de constantes derrotas. É preciso dar vazão à ebulição, e não foi em vão que o amigo à mesa lhe disse: "o que tens a fazer, faze-o depressa", que apesar dos nossos melhores esforços, não é para sempre que conseguimos carregar tanta esperança sem jamais pô-la à prova. E se, ao invés de trair o seu próprio Mestre, o que Judas realmente quisesse fosse armar uma confrontação final que levasse à definitiva vitória do seu amigo, reunir ali todos os inimigos para que o Mestre mostrasse sua força, fazendo transparecer a glória que não mais poderia se esconder? O plano, à primeira vista, não deu certo, mas qual dos nossos planos realmente tem sucesso? É que são tantas as coisas que gostaríamos de fazer e não sabemos como. Vencer, amar, viver, para nada disso há instruções claras, roteiros fidedignos, corretos mapas. E se cada um de nós for, para tantas coisas da vida, nada mais do que um Judas apressado, calculando tristezas e denários, escrevendo em linhas tortas o que será, algum dia,a nossa verdadeira história? Assim, quando nos sentimos sufocados, pendurados à árvore das nossas preocupações, será que não podemos imaginar aquele mesmo amigo à mesa a dizer, em tom manso: "sei que muito tentaste fazer, mas não sabias como; então vem a mim para que a paz esteja contigo"? Porque é tão fácil olhar os conflitos de um homem e chamá-lo de traidor, de mercenário, mas é tão difícil admitir que queremos amar e que o nosso amor acha alguma forma de dar errado, que queremos ser bons e temos tantas falhas, que queremos ver a verdade Daquele que promete a vida eterna e tantas vezes não conseguimos ver com carinho sequer a vida passageira que faz bater o nosso coração. Somos, todos nós, um único Judas a beijar o rosto de Deus na esperança de que, um dia, possamos olhar para dentro e perceber de quantos beijos divinos será feito o nosso destino, de quantas tentativas de amar será feita a nossa história.
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