Antissemitismo à luz de George Steiner


No livro “A Long Saturday: Conversations”, George Steiner, um dos maiores críticos literários da contemporaneidade, concedeu uma extensa e interessante entrevista à jornalista Laura Adler.


Diante do pernicioso antissemitismo que se alastra no mundo - uma praga da qual, em verdade, nunca nos vimos inteiramente livres - e também em face do genocídio cometido contra os palestinos de Gaza e da Cisjordânia pelas cruentas mãos de Netanyahu e dos seus ministros eugenistas, trago uma tradução livre de um dos trechos mais fascinantes da entrevista.


«GEORGE STEINER: Em três instâncias o judaísmo manteve a humanidade sob cativeiro da maneira mais tormentosa possível. Primeiramente, com a Lei Mosaica. O monoteísmo é a coisa menos natural no mundo. Quando os antigos gregos diziam existir dez mil deuses, essa afirmação era natural, lógica, encantadora; os seus deuses habitavam o mundo com beleza, com reconciliação. Os judeus responderam, porém: “Inimaginável! Não se pode ter uma imagem de Deus. Dele não se pode haver uma concepção que não seja ética, moral. Ele é o Deus Todo-Poderoso; Ele visita a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira geração etc [Ex, 34:7].” A Lei Mosaica, a moralidade do monoteísmo, é terrível: esse foi o primeiro ato de chantagem.


A segunda instância do cativeiro: o Cristianismo. Surge a figura de Jesus, o judeu que injunçava as pessoas: “Darás tudo o que possuis aos pobres. Sacrificarás a ti mesmo pelos outros. O altruísmo não é uma virtude, mas a verdadeira obrigação da humanidade. Viverás com humildade”. Essa é uma mensagem profundamente judaica: O Sermão da Montanha é construído de citações de Isaías, Jeremias e Amós.


E a terceira, Marx, que proclama: “Se tens uma boa casa com três quartos vazios e há ao teu redor aqueles que sequer uma casa possuem, tu és o mais ignóbil dos porcos”. Não há defesa possível à luxúria por dinheiro, por sucesso, à ganância e ao egoísmo humano. O que o revolucionário Saint-Just disse? “A felicidade é uma nova ideia na Europa”. O que Marx disse? “Justiça, uma nova ideia na Europa. Chega das terríveis desigualdades. Os pedintes crescem nas calçadas das nossas capitais - Em Paris, em Londres”.


Assim, por três vezes, o judeus exigiram: “Torna-te humano. Torna-te humano. Torna-te humano”. É assustador. E agora, uma nota de rodapé: surge Freud e ele nos retira os sonhos. Ele sequer nos deixa sonhar em paz. Como os grandes profetas, Isaías se declara aquele que desperta a cidade [de Sião] à noite. “Acorda-te. Deixa de dormir!” [Is, 52:1]. É, porém, de muita maldade arrancar de nós o nosso animalesco sono burguês. Dormir bem é o luxo da burguesia, da classe média. Pessoas famintas nunca gozam de um bom sono. E Freud chega para nos tirar a paz do sono e dos sonhos.


Quando Hitler declarou que “os judeus inventaram a consciência”, ele tinha razão. Absolutamente. Essa foi uma afirmação profunda daquele homem cruel. Quando Solzhenitsyn, quem eu considero um grande homem, apesar de detestável, disse que “o vírus do comunismo, do bolchevismo, é totalmente judeu e infectou a santa e virgem teocracia russa”, ele estava correto.


Podemos nos sentir orgulhosos ou mesmo detestar tal realidade, mas o antissemitismo é uma espécie de choro humano que implora: “Deixa-me em paz!”. É um choro contra a importunação moral que o judaísmo representa».


O Deus de Israel, que fala pela boca dos seus profetas, não é a divindade indiferente da lei da natureza, perante quem o forte vence e o vulnerável perece. O Deus de Israel julga o mundo com justiça. O Deus de Israel é Deus encarnado na História. É no palco dramático do nosso tempo que o seu julgamento será escutado, de geração em geração. Justiça será a sua medida porque Justiça foi a sua palavra diante da Cruz de Jesus Cristo, seu Filho Unigênito.


As palavras de George Steiner, verdadeira ameaça ao mundo da “segurança” e da apatia em relação ao choro dos fracos, das viúvas, dos famélicos, dos destituídos, dos errados, dos falidos, dos pecadores - essas palavras são o despertar de Sião para a Justiça incômoda que vem de seu Deus.


Que os filhos de Israel não esqueçam que o Rei de Jacó “ama o direito e estabelece aquilo que é reto” (Salmos 99,4), que “justiça e direito são a base do seu trono” (Salmos 97, 2), e que “O Senhor não repelirá o seu povo e não abandonará a sua herança. O julgamento voltará a ser justo, e o seguirão todos os de coração reto” (Salmos 94, 15).


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