O Novo Ascetismo: Sexualidade, Gênero e a Busca por Deus (Sarah Coakley)
O amadurecimento da espiritualidade nos impele à ultrapassagem de dicotomias que em nada nos podem ajudar. São essas dualidades que, se às vezes úteis para delimitar a nossa visão de mundo, depois de um tempo atrofiam o pensamento e nos jogam em uma batalha sem vencedores. É a partir desse amadurecimento que a teóloga Sarah Coakley, integrante do clero da Igreja da Inglaterra, procura superar a dicotomia "repressão x libertinismo" que assola o a comunhão anglicana, e também o catolicismo, nas questões relativas à sexualidade humana e ao gênero.
A autora, longe de propor soluções absolutas, acredita que o único caminho possível para a superação de tal dualidade é a reconstrução de uma teologia do desejo que almeje a purificação e a vivência de um novo paradigma ascético. Ao fazer várias referências a Gregório de Nissa, Coakley afirma que a possibilidade de uma vivência ascética nada tem a ver com a mera negação do desejo, mas, antes disso, com a sua intensificação diante do seu telos, de sua própria finalidade, a comunhão com Deus.
Assim, observar o desejo em sua teleologia é, necessariamente, lançar mão de um paradigma no qual o desejo erótico esteja concatenado em suas diversas faces: desejo de comida, bebida, conforto, intimidade, reconhecimento, poder, prazer, dinheiro, amizade, sexo, Deus, etc, de tal modo que um exagero, desequilíbrio ou pecado em qualquer uma dessas partes inexoravelmente afetará as demais facetas do desejo. Por isso, rebate Coakley o argumento de que a moral sexual seja assunto exclusivamente privado, no qual a Igreja não deva intervir: "O sexo é realmente privado? É correto que várias inclinações ao prazer suplantem o chamado à fidelidade? O meu desejo de riquezas e de bem-estar, muitas vezes ao custo da dilapidação da África, está realmente desconectado dos meus demais desejos, incluindo o desejo sexual, e de como eu os vejo e os analiso diante de Deus?"
O objetivo da autora não é criar um roteiro para o comportamento moral, mas sim apresentar a possibilidade de uma vida ascética como uma vida na qual o desejo é, paulatina e vagarosamente, purificado perante Deus, posto à prova em uma rotina de oração e de espiritualidade. Para Coakley, tal purificação só é possível por meio de uma espiritualidade profundamente trinitária, já que, segundo a teóloga, o desejo - especialmente em seu sentido erótico - é refletido no desejo íntimo da Trindade entre as pessoas que a compõe, de modo que a vida ascética, longe de nos distanciar do desejo erótico, nos insere nesse desejo mais amplo embutido na Trindade. Mas não só isso: é justamente a partir da decantação do nosso desejo diante da Trindade que cada indivíduo poderá discernir como agir moralmente quanto a esse mesmo desejo. Por isso, em meio a modelos de repressão profunda e de liberdades desgastantes presentes em diversos grupos eclesiais, o discernimento alcançado por certo nível de ascetismo é o instrumento necessário à ordenação e usufruto do desejo.
É nessa relação trinitária que Coakley expõe três estágios distintos na vida espiritual: a purgação, a iluminação e a união. A "purgação", nível mais básico dessa escala, seria a descoberta pelo neófito da "etiqueta" cristã, momento em que aquilo que ele acredita (a fé que acabou de receber) determina as práticas que ele deve adotar em sua vida, muitas vezes em oposição à sua realidade anterior à conversão. Já a "iluminação" corresponde à etapa na qual, gradativamente, a vivência da fé passa a informar a própria fé, os primeiros escrúpulos são postos de lado e o "correto agir" passa a ser testado na companhia de Deus.
Por fim, a união, resultado de longa e dolorosa transformação, é a fase da vida espiritual em que o conhecimento daquilo em que se acredita é inteira e quase que exclusivamente informado pela prática da fé. Nesse contato com a Trindade não mais subsistem as dualidades com as quais nos acostumamos em nossa fase de purgação, o que acarreta em uma afrouxamento da antiga postura moral inquebrantável e julgadora e abre espaço a uma espera silenciosa em Deus que precede a nossa união com Ele, ajudando-nos a discernir, em espírito de confiança, o correto agir diante dos nossos desejos. Nessa contemplação silenciosa, inclusive a noção de gênero é afetada: existe uma postura ativa (paradigma masculino) que procura a Deus, mas também uma atitude eminentemente passiva (paradigma feminino) que espera e que se deleita nessa espera. As dicotomias arrefecem, o quebrantado torna-se indiviso, o desejo passa a ser fruto do diálogo com a Trindade criadora.
Desse modo, o desejo não pode ser compreendido apenas enquanto campo de batalha política, como fazem alguns movimentos sociais. Claro que a luta política e emancipatória de diversos grupos minoritários - e a utilização de uma "teologia liberal" que sustente tais lutas - é importante para alcançar os seus objetivos. Contudo, termos como "direitos", "liberdade", "justiça", "felicidade", não cumprirão o papel fundamental de purificação do desejo e de fundamentação desse mesmo desejo em sua teleologia, na comunhão com Deus. Além disso, a insistência em categorias políticas acaba por reforçar a dicotomia de "repressão x libertinismo" que, segundo Coakley, é um impasse a ser superado.
Ao tratar especificamente de casais homoafetivos, Coakley diz: "Que alguns casais homoafetivos agora desejem fazer, publicamente, votos de fidelidade, é um fenômeno que, eu acredito, seja uma verdadeira conquista desta dolorosa transição cultural e eclesial. Tal testemunho é, sem dúvida, uma postura ascética que não apenas se defronta com a reminiscência da desaprovação da homossexualidade por parte da Igreja [da Inglaterra] e da cultura. Talvez, ainda mais significativo, seja o testemunho de resistência desses votos a um espalhado colapso de fidelidade na sociedade como um todo".
Claro que algumas das implicações de Coakley, se transplantadas para o meio católico, encontrarão bastante resistência. É o caso acima citado, por exemplo, das uniões homoafetivas. O que importa, contudo, e o que realmente deve ter implicação para todo cristão, é o imperativo de superar posturas rigoristas e laxistas, já que essas inclinações são aquelas mesmas da purgação, as dualidades que impedem um discernimento mais aprofundado quanto a o que fazer de nossos desejos e pulsões, pois frutos de uma espiritualidade ainda imatura e belicosa. Não se trata, então, de sugerir uma via media entre a repressão e o libertinismo, mas sim de construir, enquanto Igreja e enquanto indivíduo, um processo de treinamento de si pelo meio do qual possamos refletir sobre o significado dos nossos desejos diante de Deus, abertos à possibilidade de que tal discernimento nos leve a caminhos antes inauditos ou mesmo impensáveis.

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