O teu jeito





Me mostraste o teu modo de proceder
De andar sobre minhas profundas águas,
De iluminar meus porões inabitados,
De ser esse homem, essa gente,
Que me criaste para ser.

Me mostraste o teu jeito de não temer
As lupas interiores da alma,
Na certeza de que até o vazio
É fruto de tuas mãos.
Que mesmo a solidão
Testemunha a tua presença habitada,
E dá sustento ao que em mim é amor,
Beleza, criação.

Me mostraste o teu jeito 
De apontar a direção.
Não como quem guia escravos,
Não como quem põe amarras
E, assim, sufoca a liberdade.
Pelo contrário,
Me mostraste que teus caminhos
São eleição de vida,
Discernimento de tantas vontades,
Liberdade, desejo, justiça.

Me mostraste, enfim,
Que nada que é humano se desperdiça,
Que os meus amores, as minhas lágrimas,
O meu sincero sentir,
Tudo é dom de tuas mãos,
Tudo é o teu jeito
De me criar a todo instante,
De me conceder o existir.

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