Creio em Deus
Crer é um ato da experiência, uma experiência que nem sempre pode ser analiticamente explicável ou empiricamente demonstrável, o que não quer dizer que não se trate de uma experiência racional. De qualquer modo, há camadas e camadas de linguagem, signos, vivências, emoções, sinapses neurais, respostas do corpo, que fizeram com que a minha experiência de fé se movesse em um ou em outro sentido.
Ao mesmo tempo, a experiência de Deus não é só minha, não é determinada ou determinável apenas por aquilo que constitui a minha subjetividade, os meus gostos, as minhas opiniões. Há um poema atribuído ao Meister Eckhart, místico dominicano do século XIII, que diz que «Deus não é aquilo que tu pensas, nem mesmo aquilo que tu crês, porque Deus é uma palavra não dita, um pensamento não pensado, uma crença não crida». Deus, portanto – e aquilo que Ele faz a humanidade experimentar de Si –, ultrapassa as minhas categorias de pensamento, vai além da minha capacidade de cognição.
Ainda assim, é nessa capacidade comedida de intelecção que Deus se manifesta a mim e a todas as suas criaturas. Quando o teólogo ortodoxo Christos Yannaras trata das Escrituras – o relato escrito da experiência do povo com Deus – em seu livro «The Freedom of Morality», argumenta que é apenas quando somos «organicamente esculpidos pela experiência [de Deus] que nós [os cristãos] podemos reconhecer as verdades das Escrituras» (1984, p. 49). Então, mesmo que as experiências individuais sejam sempre parciais – e aqui reside uma questão importante acerca de se a experiência da Igreja é, também ela, uma experiência parcial, mesmo que envolta no Absoluto do Cristo Eucarístico –, é fato de que na parcialidade Deus se revela e que é nessa experiência ambígua entre parcialidade e absoluto que cada um dos crentes vai sendo esculpido em sua relação com Deus. Nesse sentido, já defendia o apóstolo Paulo: «Pois nós vemos agora através de um espelho enigmaticamente; mas depois, [será] cara a cara. Agora conheço [as coisas] parcialmente; mas depois conhecerei na medida em que eu também fui conhecido» (1 Cr 13:12).
Assim, se os cristãos ousam dizer que Deus é amor, bondade, alegria, salvação, mesmo que tais signos tenham referências parciais, porque advindas de experiências humanas, é verdade que a realidade de Deus que defino através de tais palavras deve ter algo da experiência humana desses mesmos signos. Por exemplo: se eu ouso dizer que Deus é amor, então mesmo que o Absoluto Amor de Deus seja abundantemente mais complexo e superior ao meu amor humano, é certo que deve haver algo do meu amor humano refletido no Amor de Deus, pois, caso contrário, um ser humano jamais seria capaz de afirmar que Deus é amor. O mesmo ocorre quando digo que Deus é bom. A Bondade de Deus certamente me ultrapassa, mas também é certo que deve haver algo da bondade humana refletida na bondade divina, caso contrário, a utilização da palavra «bom» para descrever Deus seria uma contradição.
Nesse sentido, afirma Simone Weil que «tudo o que o homem deseja de maneira vã aqui embaixo é perfeito e real em Deus. Todos esses desejos impossíveis estão em nós como uma marca da nossa destinação, e eles são bons para nós desde que não esperemos realizá-los» (2021, p. 81). Para o deslumbrante platonismo da mística francesa, há alguma correspondência entre o desejo humano e a realidade perfeita de Deus, como se a parcialidade da experiência humana encontrasse a sua completude no divino. O amor humano, parcial, apresenta-se em sua plenitude no Amor de Deus. A bondade humana, parcial, encontra a sua plenitude na Bondade de Deus.
E essa análise, longe de ser uma mera estipulação do pensamento, é detentora de uma aplicação concreta importantíssima, porque se a minha experiência parcial tem algo a dizer da experiência absoluta de Deus, então a minha experiência humana me ajuda a discernir o que é a experiência de Deus. Se o amor de uma mãe ou de um pai pelo seu filho não permitiria, por exemplo, que tal filho fosse condenado à pena de morte, mesmo que tenha cometido o crime mais nefasto, se esse amor humano parcial não permite a aniquilação daquele que é amado, por qual razão o Amor Absoluto permitiria que padecessem aqueles que Ele ama? Disso Jesus entendia bem: «Ou será que existe alguém entre vós, a quem o filho vai pedir pão: [esse pai] não lhe dará uma pedra, não? E se lhe vai pedir um peixe: não lhe dará uma cobra, não? Se vós, sendo iníquos, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai, o nos céus, dará coisas boas àqueles que lhe pedem» (Mateus 7, 09-11).
Tudo isso para dizer que a parcialidade da experiência humana me informa algo da totalidade da experiência divina. É por tal razão que o Metropolita Anthony Bloom, bispo da Igreja Ortodoxa Russa Fora das Fronteiras, no seu livro «Churchianity Vs. Christianity», relata uma conversa que teve com o padre Lev Gillet, também da Igreja Ortodoxa, acerca da matéria da redenção universal.
Segundo o Metropolita, o padre Lev Gillet lhe teria respondido que concordava que, no final, ninguém perecerá, pois podemos «com ousadia, alegria e humildade, proclamar que a salvação universal é uma certeza da esperança; que o Deus que conhecemos, mesmo que o conheçamos pouco, muito pouco, mas que ainda assim conhecemos, não é um Deus que criou as suas criaturas para que, posteriormente, viessem a perecer» (2017, p. 51). Por pouco que conheço Deus, por mais parcial que seja a minha experiência humana, é certo que algo da minha experiência deve estar retratado em Deus para que eu possa falar Dele. Por esse motivo, mesmo que Deus seja infinitamente maior do que o ser humano mais sábio, o fato de que experimento a Deus como um Deus amoroso revela que o seu Amor é muito maior do que aquilo que, dentro da minha experiência incompleta e parcial, desejo ou vislumbro.
Continua o Metropolita Anthony Bloom:
«Quando, após a nossa morte, nos encontrarmos diante de Deus e vermos a sua infinita beleza, santidade e o seu Amor sacrificial, é verdade que poderemos ficar horrorizados ao pensarmos e ao sentirmos que todo esse Amor nos foi oferecido durante a vida e o rejeitamos. Mas poderíamos imaginar que Deus simplesmente nos olharia e diria “Estás vendo? Perdeste a tua oportunidade na Terra. Agora é muito tarde! Fica longe de mim!”? Poderíamos imaginar isso? Independente do quanto estimamos a justiça, poderíamos imaginar que uma mãe, um pai, um amigo, vendo o seu filho ou o seu amigo se deparar com o grande horror de ter recusado, durante a vida, o grande Amor, diria “Afasta-te de mim”? Será que a nossa resposta não seria dizer àquele perdido: “Vem e chora. Eu tentarei te consolar a respeito da vida que destruíste, a respeito do passado que não pode ser mudado ou redimido, mas um passado que já passou, que já não é mais teu. Vem e chora aqui comigo, porque eu não te rejeito!”?» (2017, p. 51).
Apesar de a minha atual circunstância humana ser de uma experiência parcial da realidade, Deus não me criou para parcialidades, mas para a comunhão completa consigo mesmo e com o seu Filho. O verdadeiro Apocalipse, o Apocalipse que é a esperança do Cristianismo, não é «uma questão de tornar públicos julgamentos individuais. É, pelo contrário, um momento em que a interligação entre toda a humanidade e todas as criaturas será revelada. [...]. Não somos indivíduos separados, mas uma gota derramada em uma corrente de água. E, assim, estaremos diante de Deus enquanto raça humana» (BLOOM, p. 55).
E quanto ao inferno, as Escrituras mostram que não há inferno que seja impenetrável à luz de Cristo. O teólogo anglicano Robert Farrar Capon, padre da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, diz que o melhor título para o que se costuma chamar de «parábola do filho pródigo» seria «parábola do pai que perdeu dois filhos». Ambos os irmãos da parábola estão perdidos em alguma forma de inferno. O inferno do pródigo, aquele que pediu ao pai que se fizesse de morto para que fosse possível repartir a herança, é aquele inferno da distância do pai, da perdição na noite alta, da alienação de sua casa e da bondade do seu pai. O inferno do que permaneceu na casa e herdou as propriedades do pai é que ele se vê com um coração impossibilitado de acolher o irmão pródigo que retornou ao lar.
Em determinado momento da parábola, o pródigo retorna à casa e o pai decide lhe preparar um banquete. O irmão que permaneceu no lar se sente traído pelo próprio pai que para ele nunca havia dado tal festa, mesmo que tivesse permanecido ao lado do genitor durante todo o tempo em que o pródigo gastara o seu dinheiro com bebida e prostitutas. Farrar Capon constrói o seguinte diálogo imaginário entre o irmão do pródigo e o pai:
«“Olha, Arthur (vamos chamar o irmão mais velho de Arthur), como assim eu nunca lhe dei um novilho para banquetear com seus amigos? Se você quisesse oferecer um ótimo jantar de cordeiro para todos os seus amigos, todas as semanas do ano, você tinha o dinheiro e os recursos. Você era o dono deste lugar, Arthur. Você tem dinheiro e recursos para construir 52 barracas e manter os bois engordando como bem quiser, mas nunca o fez. Por que você não fez isso, Arthur? Porque você é um contador de grãos, porque está sempre observando os outros. Esse é o seu problema, Arthur, e eu tenho uma receita para você.” (O pai está implorando para que esse sujeito saia da morte da contabilidade) Ele diz: “Tenho uma receita para você, Arthur: entre, beije seu irmão e tome um drink. Cale a boca sobre tudo isso porque, Arthur, você já entrou aqui no inferno, e eu vim aqui neste pátio para visitá-lo no inferno em que você estava” (2002)».
O brilhante diálogo idealizado por Farrar Capon demonstra que Cristo não é o inimigo dos condenados. Ele é Aquele quem os encontra! A questão é que do mesmo jeito que não se escapa do amor de uma mãe, de um pai, de um amigo, do mesmo modo em que não se escapa do amor dos humanos que nos amam, também não se escapa do amor de Deus. Acredito que não há inferno tenebroso o suficiente que fará com que Cristo deixe de nos procurar e de nos querer vivos e ressuscitados em seu amor. E isso é verdade porque se o amor de Deus é Absoluto enquanto o nosso amor é parcial, o amor de Deus por nós não pode ser inferior ao amor que experimentamos pelos e dos demais seres humanos.
É comum, todavia, escutar que, se por um lado se pode argumentar que Deus não condenará ninguém, por outro lado Deus não se imporá à liberdade humana de negar o seu Amor. Mas que liberdade é exatamente essa? Como falado acima, a condição humana é uma experiência de parcialidades, então não existe concretamente algo como uma liberdade perfeita nesta vida – «Não é o bem que quero que faço, mas o mal que não quero, é esse que pratico» (Romanos 7:19). Pelo contrário, como afirma o teólogo David Bentley Hart, na medida em que está «liberta de toda a ignorância, emancipada de todas as condições adversas desta vida, a alma racional só pode livremente desejar e escolher a sua própria união com Deus, união essa que é a sua alegria suprema» (2019, posição 530, e-book).
Acredito que o que tudo isso significa é que não há um modo absoluto de negar a Deus. Há, todavia, apenas modos mais ou menos apropriados, mais ou menos precisos, de se aproximar da Sua Transcendência. O Caminho, a Verdade e a Vida é, sem sombra de dúvida, o Absoluto, o Cristo que se fez carne e habitou entre nós. Mas o modo de caminhar pelo Caminho, de conhecer a Verdade e de viver a Vida será sempre permeado pelas condições concretas das experiências individuais e comunitárias de cada um. E o que importa é que, por mais diversas que sejam tais experiências, acredito que todos podemos ter a esperança de que aquilo que elas tiverem de justo, digno, verdadeiro e belo, também será refletido na Justiça, Dignidade, Verdade e Beleza do Cristo.
E é porque Deus, na forma em que Ele se revelou, é para mim uma experiência de amor, e porque esse amor deve estar refletido no Absoluto Amor que Ele é, por isso, junto com o Metropolita Anthony Bloom e tantos outros, tenho a esperança de que ninguém irá perecer, tenho a esperança de que, no momento escatológico, mesmo a separação das ovelhas e dos cabritos não será definitiva, porque a perda de qualquer cabrito, de qualquer ovelha, de qualquer rosto humano desejado por Deus seria uma derrota para o Criador. Acredito, enfim, que Deus não aceitará qualquer derrota, que se cumprirá aquilo que afirmam as Escrituras: «Deus será tudo em todos» (1 Coríntios 15:28).
BLOOM, Anthony. Churchianity vs. Christianity. Nova Iorque: St. Vladimir’s Seminary Press, 2017. 130 p.
CAPON, Robert Farrar. The father who lost two sons. Disponível em: https://afkimel.wordpress.com/2023/08/26/the-father-who-lost-two-sons/.
HART, David Bentley. That all shall be saved. Nova Haven e Londres: Yale University Press, 2019. 232 p.
WEIL, Simone. Pensamentos desordenados sobre o amor de Deus. São Paulo: Editora Vozes. 2021, 128 p.
YANNARAS, Christos. The freedom of morality. Nova Iorque: St. Vladimir’s Seminary Press, 1984. 278 p.
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