Deus. Sem recompensas.
No livro «Falar de Deus a partir do sofrimento do inocente», Gustavo Gutiérrez propõe a elaboração de um discurso acerca de Deus que vise superar os paradigmas comuns de merecimento e punição, castigo e recompensa. Segundo o teólogo peruano, podemos achar pistas importantes para a confecção desse discurso a partir da experiência dos pobres e marginalizados das sociedades latino-americanas, já que, segundo aponta o documento de Puebla, «os pobres merecem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem» (1142). A experiência dos pobres, portanto, é indicativa de que a relação do humano com o Criador não está pautada em um rudimentar jogo de ações e recompensas, mas sim na gratuidade da bondade de Deus, porquanto «a base primeira da preferência de Deus pelos pobres deve ser encontrada na própria bondade de Deus e não em uma análise social ou da compaixão humana» (GUTIÉRREZ, 1987, p. 13), muito menos em um esquema de retribuição pela prática de atos meritórios.
O livro acima mencionado, contudo, não se limita a traçar uma simples análise da situação do pobre na América Latina. Pelo contrário, tal análise teológica só se torna possível pois fundamentada no profundo estudo desenvolvido pelo autor acerca do livro de Jó. Segundo Gutiérrez, se, por um lado, a teologia tende a inquirir acerca do «mal da culpa», em face à experiência dos pobres a teologia tem de se preocupar com o «mal do azar», afinal, multidões de pessoas sofrem inocentemente, sem qualquer culpa, como se por mero azar, por cruel e arbitrário destino. Em meio ao atroz «azar» que permeia a vida dos que sofrem inocentemente, eis a questão acerca de Deus e do humano que precisa de resposta: «Podem os seres humanos crer em Deus desinteressadamente, isto é, podem crer em Deus sem a busca de recompensas e despidos do medo de punições? [...] Podem continuar a crer em Deus e falar de Deus sem a expectativa de um retorno?» (GUTIÉRREZ, 1987, p. 24).
Jó, então, é um personagem bíblico que, em meio ao seu sofrimento, busca uma forma de falar acerca de e para com Deus. No início do livro de Jó, Satanás argumenta diante de Deus que a justiça e a piedade de Jó se dão porque ele espera uma espécie de recompensa por sua prática religiosa.
«É sem motivo que Jó teme a Deus? Não levantaste um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens? Abençoaste as obras de suas mãos e seus bens cresceram na terra. Estende, porém, um pouco a tua mão e toca em quaisquer de seus bens, para ver se não te amaldiçoará frontalmente» (Jo 1, 09-11).
Essa é a provocação de Satanás a Deus. Satanás procura convencê-lo que a prática de Jó não é desinteressada, que a sua prática piedosa é utilitária e visa apenas os benefícios que Deus pode lhe conceder, que se trata, enfim, de uma crença fundamentada na doutrina da retribuição: faz-se para que Deus recompense. Após o debate inicial entre Deus e Satanás, o Senhor permite que uma série de maus aconteça a Jó e à sua família. O grande drama da narrativa bíblica não é tanto a particularidade de Deus ter permitido que tais sofrimentos ocorressem, mas sim a forma em que Jó consegue falar de Deus a partir do seu sofrimento, consegue tecer um discurso que vai além de uma percepção de retribuição da fé.
Em outras palavras, Jó está diante de um sofrimento injusto e, a partir de sua inocência, tem de encontrar um discurso de fé que seja «desinteressado», isto é, que não esteja pautado em uma lógica de recompensas e retribuições. Ao longo da trama, três amigos de Jó vão ao seu encontro. Todos eles, com um maior ou menor grau de sensibilidade, apresentam-lhe uma resposta pronta a explicar o porquê daquele sofrimento inusitado: Deus pune aqueles que praticam iniquidades, então, consequentemente, Deus deve estar punindo Jó por algum pecado cometido; se Jó não tivesse cometido pecado algum, nada disso lhe estaria ocorrendo. É, em síntese, a doutrina da retribuição.
Em face à proposição teológica dos seus amigos, Jó adota um discurso combativo em que afirma a sua inocência. O que se passa nas entrelinhas é a negação de uma perspectiva religiosa que «estabelece condições para a ação de Deus aplicando-lhe determinado cálculo», posto que a verdadeira fé não pode ser «baseada em direitos e obrigações de seres humanos enquanto meros agentes morais, mas sim uma crença desinteressada baseada na gratuidade do amor de Deus» (GUTIÉRREZ, 1987, p. 44). O combate de Jó, segundo Gutiérrez, não é contra Deus – apesar de Jó se utilizar de palavras duras contra a injustiça «permitida» pelo Criador – mas sim contra uma teologia que justifica o sofrimento dos pobres como uma espécie de paga pelo pecado cometido, como se houvesse alguma culpa passada engendrada por aquele que agora sofre.
O que o teólogo peruano argumenta, enfim, é que o discurso elaborado por Jó nos ajuda a perceber que o fundamento da experiência de Deus é a gratuidade do amor divino e não a retribuição pelos nossos feitos ou omissões. Deus é livre, não está subordinado a um esquema de causa-consequência, está para além de conceitos teológicos que parecem mais afastar os sofredores do que aproximá-los do amor misericordioso do Criador. Assim, uma vez que conseguimos lançar mão de um novo discurso acerca de Deus, discurso pautado na gratuidade do Amor, somos capazes de dizer, assim como Jó, «Eu te conhecia só por ouvir dizer, mas, agora, vejo-te com meus próprios olhos» (Jó 42, 5).
Gustavo Gutiérrez convida-nos, então, a partir da experiência de Jó, a adotar uma fé que perceba que o amor de Deus, «como todo amor verdadeiro, não opera em um mundo de causa e efeito, mas de liberdade e gratuidade. É assim que as pessoas se amam de um modo incondiconal: sem pagamentos de qualquer tipo e sem obrigações externamente impostas que as pressionem segundo as expectativas do outro» (GUTIÉRREZ, 1987, p. 146). Trata-se, enfim, do abandono de um paradigma penalista em favor do paradigma da graça. E é somente a partir do paradigma da graça, da gratuidade do Amor, que se pode construir um discurso verdadeiro acerca de Deus, que se pode vê-Lo com os próprios olhos.
E todas essas questões eu pontuo aqui pois o livro de Gustavo Gutiérrez iluminou o meu entendimento acerca de um evento que recentemente me marcou bastante. No Centro Cultural de Brasília, no mês de março de 2024, ocorreu uma reunião do grupo «Diversidade Cristã», que tem por objetivo acolher pessoas LGBT+ e os seus aliados em um ambiente de fé seguro.
Nessa reunião, uma senhora que disse não ser LGBT+, partilhou que, em sua infância, era sexualmente abusada por um tio de modo contumaz. Contou, também, que relatava a ocorrência de tais abusos ao seu pároco na esperança de que ele pudesse ajudá-la de alguma forma. O pároco, contudo, limitava-se a dizer que ela não deveria tratar do assunto com ninguém, e, assim, com a sua omissão, permitiu que os abusos continuassem impunemente. A profunda ferida dessa mulher, uma vítima inocente, a fez dizer no grupo que não mais se identifica como católica, mas que na dinâmica do grupo Diversidade Cristã consegue encontrar um solo fértil para desenvolver a prática do seguimento a Cristo. Qual foi a minha surpresa quando, na missa que aconteceu alguns minutos após o término do encontro, a mesma mulher, que dizia não mais se identificar enquanto católica, proclamou uma das leituras da liturgia da palavra. Fez-me lembrar das palavras do Pe. Libânio em sua introdução ao livro Fé Além do Ressentimento, do teólogo inglês James Allison: «teologicamente falando, parece correto afirmar que todo elemento cristão tem cidadania no mundo católico, se não por convicção da instituição eclesiástica, ao menos por força da vontade de Jesus. Quem está com Jesus não deveria sentir-se fora da casa católica».
A mulher que, quando criança, foi abusada pelo seu tio com a aprovação tácita do pároco, havia, naquele grupo, encontrado uma nova forma de falar de Deus. Uma forma que, dadas as suas circunstâncias, poderia lhe parecer não muito católica, não muito institucionalizada, mas que não deixava de testemunhar o valor evangélico do seu discurso, um discurso livre da ideia da retribuição, pois, com tal experiência trágica de vida, o sofrimento que lhe foi imposto enquanto criança e a marginalização da comunidade por ela experimentada tiravam de sua fé qualquer esperança de recompensa temporal. A essência daquela experiência de fé, portanto, consistia em afirmar-se vítima inocente diante do abuso sofrido e, com clareza da sua inocência, colaborar com aqueles que, no grupo, também eram sofredores inocentes. Era a partir dessa experiência de absurdo que a mulher falava de Deus, que a mulher conseguia vê-Lo com os seus próprios olhos e não mais por mero «ouvir dizer».
Outra partilha que muito me marcou no encontro foi a de um jovem rapaz que, quando adolescente, queria entrar no seminário. Por ter sido sincero quanto à sua sexualidade com o formador, foi-lhe negada a admissão. Após várias crises de fé decorrentes dessa rejeição, ele encontrou um namorado que lhe tem acompanhado nas dificuldades da vida e lhe ajudado na superação dos seus traumas religiosos. Um dia, muitos anos depois, um padre jesuíta que já tinha entrado em contato com esse rapaz anteriormente lhe enviou uma mensagem para comunicar que estaria em Brasília no final de semana do encontro da Diversidade Cristã. Então, o jovem rapaz relatou na partilha que, na manhã em que recebeu a mensagem, repetia para si mesmo sem parar: «O padre Luiz se lembrou de mim!». Novamente, trata-se de uma experiência de fé sem a esperança de qualquer recompensa, de tal modo que o jovem rapaz era capaz de se surpreender com o simples fato de um padre ter lhe enviado uma mensagem.
Construir um discurso acerca de Deus implica em construir um discurso acerca de nós mesmos, e para fazê-lo é necessário que nos consigamos ver como pessoas que se lembram e são lembradas. Pessoas de memória e de fala, capazes de reconhecer as suas inocências – e, também, as suas culpas –, e, sobretudo, dispostas a proclamar que Deus promove a dinâmica da gratuidade do amor e não o paradigma do toma-lá-dá-cá. Esse é o desafio da crença sem a expectativa de uma retribuição.
Ambas as pessoas acima relatadas encontram-se à margem da instituição católica, rejeitadas por paróquias que não querem que elas façam parte da vida comunitária. Essas pessoas são, portanto, pobres que, sem a pretensão de qualquer recompensa, tentam construir um discurso acerca de Deus que seja fiel a Deus e a elas mesmas, um discurso afastado da lógica da retribuição e permeado da esperança permitida pela Graça misericordiosa do Senhor. É por isso que acredito que a única forma de verdadeiramente colaborarmos na construção de um discurso fiel acerca de Deus seja através do envolvimento com aqueles que já estão construindo esse discurso por meio das suas próprias experiências de sofrimento e de redenção, de morte e de ressurreição. É apenas quando levamos a sério o sofrimento e a inocência dos que sofrem que podemos libertar Deus das nossas pré-concepções teológicas para que, enfim, sejamos libertos e direcionados ao amor da sua Graça, Graça que, como o próprio nome implica, é gratuita e disponível a todos e todas dispostos a cooperar na missão do Amor.
GUTIÉRREZ, Gustavo. God-talk and the suffering of the innocent. Nova Iorque: Orbis Books, 1987. 156 p.
LIBÂNIO, João Batista. Prefácio. In: ALLISON, James. Fé além do ressentimento: fragmentos católicos em voz gay. São Paulo: É Realizações. 336 p.

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