Para além dessa árvore
Fora anunciado que ele chegaria. Todos se apressavam, passavam pelas ruas e esquinas perguntando qual seria o local exato. Algo em mim queria tanto vê-lo... mas por quê? O que indicaria que ele seria diferente dos demais? Dessa gente que já não ia com minha cara, dessa gente que para a vida me fazia barreira... Mas sim, eu queria vê-lo. Me disseram que ele era homem, mas não qualquer homem. Me falaram do seu olhar, me falaram do seu jeito de tocar o corpo, de dar vida, de pôr ao sufoco um fim. Eu queria vê-lo, sim.
Mas como vê-lo se todos já faziam fila? Preparavam, em alto e bom som, as ofertas que queriam lhe apresentar. Já eu, nada tinha a lhe dar. Além do meu toque, do meu corpo, do meu olhar, nada me sobrava. Tão rico do dinheiro por aí recolhido, mas, para dizer a verdade, tão pobre de todo o resto. Não, não é que em mim só havia pecado. Não, não é que de mim só se poderia esperar o amargor, a opressão, o imposto. Em mim havia tanta coisa... mas essa gente não via, eu tampouco sabia.
Subi, assim, em uma árvore. A altura dos justos não me deixava vê-lo. Engraçado... não foi pela visão que, no primeiro momento, me dei conta de sua presença. Foi por um cheiro novo no ar, algo que me indicava que havia mais vida, que havia mais liberdade. Foi com essa liberdade que subi na árvore, subi à procura do que, talvez, fosse o meu lugar de amar, o meu lugar de ser quem sou. Foi, então, que ele me olhou. Primeiro, o seu olhar me assustou. Como poderia um homem carregar em si tanto amor? Não, não era um amor qualquer, tampouco era uma bondade apenas. Ele me olhou com esperança, me olhou admirado, inventou nova forma de me interpretar. Viu algo em mim que ninguém ali, até então, tinha tido a coragem de ver: eu era, também, filho de Abraão, filho dessa gente, filho desse chão. Me mandou, então, ao chão retornar. Disse que em minha casa havia de ficar.
Desci, cheio de amor, da árvore onde a coragem me colocou. O meu lugar era entre a gente, com todo esse povo, na memória daquele olhar. Me chamou até ele, bem sei. Mas enquanto eu caminhava em sua direção, tantos murmuraram... Minha fé por um momento vacilou. Será que teria eu entendido algo errado? Fora mesmo a mim direcionado aquele chamado? Ele percebeu a minha desconfiança, ele se deu conta do risco de meus passos arrefeçarem no meio do caminho. Novamente ele me olhou, me disse para não fazer caso do barulho das gentes, confidenciou que havia chegado para salvar tudo aquilo de humano que havia em mim.
Finalmente, fundamentado nesse amor sem fim, até ele cheguei. O olhar deu lugar a um abraço. Me protegeu daquele povo, me protegeu do acaso, me protegeu de mim. Me abraçou forte, escutou o meu coração a palpitar, disse que à minha casa queria andar. Conversamos pelo caminho, me ensinou a não temer os gestos daqueles que não compreendem que até a errância das erradas estradas dá, enfim, no lugar certo. Me disse que havia atravessado tantos caminhos para me encontrar... Me disse estar feliz com o meu olhar.
Chegando em casa, cansados, nos deitamos em minha cama. Foi quando tocou o meu rosto, os nossos rostos tão parecidos: a marca entre o nariz e os lábios, o encaracolado dos cabelos, a lágrima de alegria que pelos olhos escorria. Me vi refletido naquela imagem e tomei para mim a imagem que era sua. Desde então, fomos só um em nosso jeito de amar, de existir, de partilhar. Ele não se espantou com o vazio que encontrou em minha casa, não fez rodeios em suas palavras, tampouco me expressou listas de suas vontades. Pelo contrário, logo antes de sair da casa para sua jornada continuar, me contou que, para eu novamente o achar, bastava examinar o que de mais generoso havia em meu coração. Ele estaria lá, em qualquer gesto por amar, preparado, novamente, para me dar a mão

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