Da casa
("Casas".1960. Arcangelo Ianelli. Óleo sobre tela, c.i.d. 80,00 cm x 60,00 cm)
Da casa
I
Antes fosse uma avalanche,
Ou as ruínas após anunciados tremores,
Os escombros desta casa a cinco.
Onde não é torpe ou ingênua,
A tua necessidade de ir,
Antes um adágio ao que resta
Entre as flores que ainda crescem,
Apesar dos espólios e dos caminhos.
Onde a vida e o tempo de viver,
E tudo o que não escolheste,
O vazio, os pés descalços, o ermo,
São impostos em testamento
à revelia de ti mesmo.
Para que enfim recobrasse o teu êxodo,
Para que, onde tudo jaz o seu fim,
Talvez o teu soturno começo.
II
Alguém estava sob o pé de jambo,
Alguém coletava as frutas, alguém
Se deitava no tapete rosa de pétalas
No quintal de uma casa
Que não era tua, as frutas
De outro dono, as pétalas
De outra terra.
III
Não sobraria um grão de poeira
Daqueles espalhados
No retrato dos parentes.
Não sobraria a fome,
A voracidade de um fim,
Ou a anunciação de um anjo
Onde o sol retoca a sombra
De um canto empoeirado.
Não sobraria sequer a poeira,
Tu pensas.
Mas tudo ainda sobra,
Mesmo quando vem a ti
O órfão desesperado,
Ou quando ele te recorda
Das perdas inúmeras,
Das mãos de outrora,
Das irresgatáveis horas.
Banhado em poeira, tu ainda sobras.
Mesmo nessa casa
Em terra seca,
Mesmo que essa terra
Para sempre te esqueça.

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