Travessia e palavras
“Deus se esgota, através da espessura infinita do tempo e do espaço, para atingir a alma e seduzi-la. Se ela deixar arrancar de si um consentimento puro e completo, mesmo que isso não dure mais do que o tempo de um raio, então Deus a conquistou. E, uma vez que ela tenha se tornado uma coisa inteiramente dele, ele a abandona. Ele a deixa completamente só. E cabe a ela atravessar, às apalpadelas, a espessura infinita do tempo e do espaço, em busca daquele que ela ama. É assim que a alma refaz, no sentido inverso, a viagem que Deus fez em direção a ela. E isso é a cruz”.
Simone Weil, “O Peso e a Graça”, p. 123.
“Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares, apesar de eu não poder garantir nada com antecedência. Mas torna-se cada vez mais claro o seguinte: que tu não nos podes ajudar, que nós é que temos de te ajudar, e ajudando-te, ajudamo-nos a nós próprios. E esta é a única coisa que podemos preservar nestes tempos, e também a única que importa: uma parte de ti em nós, Deus”.
Etty Hillesum, versão portuguesa dos seus Diários.
Há uma espessura infinita do tempo e do espaço que, aos poucos, pode nos separar de todo o universo, de Deus, de nós mesmos. É que cada segundo traz consigo um grão de areia que se deposita no leito da vida, e num repente a água que nele corre pode se ver turva, barrenta, com pouca transparência.
Existe, contudo, o mistério da comunhão humana. Como não se sentir atrelado às histórias antigas, aos relatos daqueles e daquelas que já se foram, mas que deixaram em nós uma marca radiante de presença e de compreensão? É que, apesar das espessuras e densidades da vida, sempre há uma palavra que, atravessando séculos e continentes, atravessando toda a criação visível e invisível, chega até nós como um bálsamo de vida. É a palavra que atravessa a morte, a palavra que ressuscita o que, não havendo ela, seria uma mera coleção de ossos e cinzas.
Acaba que, no final das contas, a vida que vale a pena depende desse mecanismo de travessia rumo a uma palavra que salva. Não sou suficiente para mim e tampouco sou suficiente para os outros se não ouso me atravessar, se não ouso traçar o caminho que me leva ao encontro de todos aqueles e aquelas que me aguardam, também eles e elas em suas travessias.
O mundo vai se apresentando assim, ora transparente, ora turvo, e as apalpadelas que me guiam não me seriam úteis se não estivessem combinadas com as apalpadelas de tantos outros que me acolhem nessa viagem, sempre dispostos a me oferecer as palavras de conforto. Em busca de palavras humanas, Deus passou por esse mesmo caminho, por essa mesma travessia por toda a criação. Nessa travessia também Ele se melou de tempo, também Ele se melou de espaço, se permitiu saborear o desespero, o cansaço, a alegria e o gozo de ser um homem em caminhada. Também o caminho dele deve ter sido opaco em alguns momentos, como o meu também o é, também o caminho dele foi assistido pelas mãos dos outros, também houve pedras, alguns momentos de mudez absoluta, eu sei.
Mas tendo a travessia dele me alcançado, não me resta nada a fazer a não ser projetar a minha própria travessia. E, atravessando, às vezes por caminhos translúcidos, às vezes pelas rotas de neblina, dou-me conta de que Ele é o Senhor das transparências e das opacidades, dos gritos e do silêncio. Nas transparências, como é fácil reconhecer a sua presença. Nas opacidades, ao contrário, é perceptível apenas sua rarefeita ajuda: como o oxigênio das montanhas, é necessário esforço para respirar o seu amor, o seu companheirismo.
Ao fim, contudo, pouco importa se sua linguagem de vida me atinge em transparências ou opacidades: pouco importa porque Ele não se satisfaz com garantias, quer somente o que eu posso oferecer agora, quer somente o que eu consigo dizer-lhe neste momento; pouco importa porque, se Ele não pode me ajudar com suas palavras que atravessam toda a densidade do mundo, me recorda que também Ele, em alguns momentos, já esteve sem ajuda, silenciado diante do vazio; pouco importa porque até a sua forma de esquecer e de calar é, também, uma forma de me amar e de, aos poucos, me ensinar palavras nova, mais eternas, mais amorosas.

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