Pecado original, imagens falsas

Adão e Eva - Bíblia de Gustave Dore 
 
 (Ilustração de Gustave Doré)


Não há quem desconheça a história de um fruto mordido pelos nossos ancestrais longínquos. Tendo criado tudo o que existia, Deus «modelou, com o pó do solo, o homem e soprou-lhe nas narinas o sopro da vida; e o homem tornou-se um ser vivo» (Gn 2, 7).

Gregório de Nissa, em sua «Criação do Homem», procura explicar o porquê de, no relato bíblico, o ser humano ter sido a última criatura da Criação de Deus: 

Por todas essas coisas, o homem chegou como cumprimento, não seja relegado com menosprezo ao último lugar, mas porque desde seu nascimento convinha que ele fosse rei. E como um bom mestre de casa não faz entrar o convidado antes de ter preparado os alimentos, mas depois que tenha preparado todas as coisas e decorado com ornamentos adaptados à casa, o assento da refeição, a mesa, e quando todas as coisas são preparadas para o jantar faz entrar o convidado no lar doméstico, do mesmo modo, aquele que, em sua imensa riqueza, é hóspede de nossa natureza, decora, antes de tudo, a casa com belezas de todo gênero e prepara um variado e magnífico festim; então ele introduz o homem para lhe confiar não a aquisição de bens que ele não teria ainda, mas o regozijo daqueles que se lhe oferecem. (NISSA, 2011, p. 49).

Segundo a explicação de Gregório de Nissa, o casal humano foi a última criação divina porque, desde o princípio, era a intenção de Deus que o homem fosse rei de todas as coisas, porque convinha ao homem gozar dos alimentos, dos ornamentos, da mesa, do festim inteiro da Criação que a ele era destinada.

O que é crucial é identificar a imagem de Deus que o relato de Gregório de Nissa transmite: não se trata de uma divindade criadora inimiga do ser humano, mas sim do Deus que é capaz de se esvaziar por inteiro para o benefício da humanidade, do Deus que põe toda a Criação a serviço daquele casal ancestral, do Deus que não reserva nada de sua Criação para si, mas que convida o ser humano a dela participar de forma integral. Desde o princípio, portanto, Deus é o Amor que concede vida em abundância aos seres humanos.

Acontece que, como bem sabemos, o nosso mundo é um tanto quanto distante do relato bíblico anterior à queda de Adão e Eva. Por que tanto sofrimento injusto? Por que tanta dor? Por que tanto pecado? São perguntas que não podemos evitar quando nos deparamos com a realidade concreta do mundo. Obviamente, o relato do livro do Gênesis quanto à queda dos nossos ancestrais é, como dito, um relato, uma tentativa de explicação que infelizmente parece ter sido reduzida à categoria mitológica na contemporaneidade – contemporaneidade que é, também, fundamentada em uma série de mitos e meias verdades.

O que importa, contudo, é pensar: qual é, exatamente, o pecado de Adão e Eva no relato bíblico? O que o autor bíblico quer nos dizer quando traz à tona Eva a comer um fruto proibido, seduzida por uma serpente maligna? Recentemente, escutei falar que o verdadeiro pecado de Adão e Eva – isso que chamamos de Pecado Original – é a irresignação do ser humano diante do fato de ser criatura e não Criador, que, de algum modo, o ato de comer do fruto proibido representaria a transgressão do ser humano que quer ocupar o lugar de Deus.

Acredito, contudo, que o Pecado Original não tem tanto que ver com o ser humano que, não aceitando ser criatura, tenta usurpar para si o local de Criador. O Pecado Original, talvez, tenha muito mais relação com o fato de o ser humano portar consigo imagens distorcidas de Deus, imagens idólatras e falsas do Criador, projetando Nele as suas próprias dúvidas, suspeitas e desconfianças e agindo diante de Deus como se Ele nada mais fosse do que um rival da humanidade, um déspota, uma divindade injusta e egoísta.

No relato do Gênesis, a serpente induz Eva a comer do fruto da árvore do conhecimento. No texto, o que a serpente faz é convencer Eva de que Deus, afinal, não é um Criador bondoso e generoso, mas um deus ciumento, que quer ocultar dela e de Adão o verdadeiro conhecimento da vida. Diz a serpente quando Eva hesita em comer do fruto: «De modo algum morrereis. Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal» (Gn 3, 4).

O que a serpente faz, portanto, é lançar no coração de Eva uma suspeita em relação a Deus. Podemos imaginar Eva a pensar: «será que, afinal, o Criador é Aquele que eu e Adão conhecemos, cheio de Amor, que nos gerou do pó e criou tudo o que existe para o nosso agrado? Ou será que Ele é um déspota, invejoso do seu poder, determinado a esconder de mim e de Adão um conhecimento que, agora, não detemos?». 

Assim, como se para conquistar algo que Deus lhes escondia, Eva come do fruto e Adão também o faz. De certa forma, é verdade que, ao comer do fruto, o casal ancestral se coloca no «lugar de Deus», se revolta contra o seu status de criatura, mas a verdade mais profunda dessa cena é que Adão e Eva se colocam no lugar de um deus que não existe, de um deus que lhes esconde algo; tentam conquistar para si o lugar de um ídolo, de uma divindade que não corresponde ao Criador que, como apontava Gregório de Nissa, fez da Criação um festim para a humanidade, pois o verdadeiro Criador é generosidade pura e nada reserva para si.

O Pecado Original é cumulado de imagens falsas sobre Deus. Jesus Cristo, em suas inúmeras parábolas, parecia saber bem disso. Talvez, tão famosa quanto a história do casal que comeu uma maçã proibida, seja a parábola do filho pródigo. Esse filho, conforme conta Jesus nos Evangelhos, decide pedir ao seu pai que antecipasse a sua herança, que lhe desse, ainda em vida, a quantia que lhe caberia quando da sua morte. O pai, sem questionar, entrega ao filho o seu quinhão e o filho, depois de uma vida devassa, retorna à casa do seu pai sem nada e lhe pede perdão. Acontece que o filho pródigo tinha um irmão, um irmão que ficou em casa, que não abandonou o pai, que envelheceu junto ao pai e com ele trabalhou durante todos os anos em que o pródigo se esbaldou em tavernas e em devassidão.

O irmão do pródigo, o filho que ficou em casa, não suporta ver que o pai preparou ao filho que desertou um banquete com o novilho mais gordo que possuíam. Diz a parábola:

«O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e danças. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava acontecendo. Ele respondeu: “teu irmão voltou e teu pai matou o novilho gordo, porque recuperou seu filho são e salvo”. Ele, porém, ficou com raiva e não queria entrar. O pai, então, saiu e insistia com ele, mas ele respondeu ao pai: “Eu te sirvo há tantos anos, jamais desobedeci a qualquer ordem tua, e nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos. Quando, porém, chegou esse teu filho, que esbanjou teus bens com as prostitutas, matas para ele o novilho gordo. Então o pai lhe disse: “Filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu; mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado”» (Lc 15, 25-32).

O grande problema do irmão do pródigo, o tormentoso e ardente inferno que ele enfrenta, é a ilusão de que o pai lhe deixara de dar algo que, por direito, lhe pertencia. Era ele o filho fiel, era dele o direito ao novilho gordo, à casa, ao banquete. Essa é, no livro do Gênesis, a mesma mentira que a serpente conta a Eva: «Deus tem algo que não quer partilhar contigo e com Adão, Deus quer guardar para si mesmo o seu poder, o seu conhecimento, porque ele é um déspota, porque ele é injusto, porque ele é um tirano».

A imagem do pai que não deu ao seu justo filho aquilo que ele merecia e a imagem de Deus que rivaliza com Adão e Eva e deles quer esconder o que existe de belo na Criação são imagens falsas, idólatras, porque, na verdade, o verdadeiro Deus diz em ambos os casos: «tudo o que é meu, é teu”. É mentira o que diz a serpente a Eva, é mentira o que pensa o irmão do pródigo sobre a injustiça do seu pai; os nossos pecados, por mais originais que possam ser, são sempre fundamentados em uma imagem falsificada de Deus, em uma ilusão. Na mesma medida em que o pecado é original, é falsa a concepção de Deus que jaz por trás dele, porque o Criador, como apontava Gregório de Nissa, preparou todo o banquete da Criação para o ser humano, com todas as maçãs, com todos os novilhos gordos.

O Pecado Original, nesse sentido, é a coleção dos falsos relatos sobre Deus que contaminam geração e geração, porque tecemos em nós a imagem de um deus à semelhança dos nossos medos, da nossa inveja, da nossa rivalidade, um ídolo que nos tira aquilo que nos é devido, e não o Criador que já nos deu tudo, que se esvaziou por completo ao ponto de morrer numa Cruz, porque nem mesmo a sua própria morte é capaz de deter o Deus que nos concede a Vida.

Assim como Adão e Eva, assim como o pródigo e o seu irmão, o desafio que nos se apresenta é saber, em liberdade, discernir a imagem do verdadeiro Deus para que, em semelhança a essa imagem, possamos esculpir em nós a imagem do verdadeiro Homem. E se, por um lado, o discernimento sempre nos coloca em um lugar de ambiguidades e de dúvidas, é certo que, uma vez purificada a verdadeira imagem do Criador em nossos corações, precisaremos de agir, com liberdade de escolha, à altura dessa imagem, pois como dizia o Metropolita Anthony Bloom «sem a possibilidade de escolha e de discernimento, não seria possível crescer – para crescer à altura da sua estatura, o ser humano precisa ter, em todo passo, a possibilidade de fazer uma escolha – [...]. Essa liberdade, essa vocação de ser aquilo que se é, não por coerção, mas por escolha, é também a grande tragédia da pessoa humana» (Bloom apud Rytsar, 2012, p. 210).



NISSA, Gregório de. A criação do homem - A alma e a ressurreição - A grande catequese. São Paulo: Paulus Editora, 2011. 392 p.

RYTSAR, Roman. The kenotic theology of Anthony Bloom, Metropolitan of Sourozh (1914-2003), in anthropological perspective. 429 f. Tese (Doutorado em Estudos de Cristianismo Oriental) - Faculty of Theology, Saint Paul University, Ottawa, 2012.



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