Eles não sabem o que fazem
«Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, aí o crucificaram. E [crucificaram] também os malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem» (Lc 23, 33-34).
Pendurado na cruz, o homem judeu que se entitulou «caminho, verdade e vida» (Jo 14,6), em diálogo profundo com o seu Pai, reconheceu que aqueles que lhe crucificavam e engedravam a sua morte não sabiam o que estavam a fazer. A atrocidade do espetáculo e a animalidade brutal dos algozes não conseguiram ser mais profundas do que a ignorância insuperável daqueles que não sabiam que, por meio de suas ações, assassinavam Aquele que tinha sido enviado «não para julgar o mundo, mas para salvá-lo» (Jo 12, 47).
Talvez a ignorância seja um dos elementos mais centrais da experiência humana. O Sinédrio e os poderes civis da Roma imperial na Judeia não sabiam o que estavam a fazer do mesmo modo que nós, tantas vezes, matamos a Deus e aos demais sem nem nos darmos conta do que fazemos. Mas o contrário também é verdadeiro: se é quando estamos mergulhados na ignorância que fazemos o mal, também é nessa mesma ignorância que podemos dar testemunho do bem, do Grande Bem que nos redime.
A parábola do Juízo Final contida em Mateus 25 descreve o momento escatológico como uma separação – uma separação, não um julgamento! – entre as ovelhas e os cabritos. Em comum, tanto os salvos quanto os condenados partilham a ignorância: a salvação ou a condenação a eles concedida nada tem de ver com o que eles fizeram conscientemente, em são julgamento, mas sim com o que eles foram capazes de fazer quando mergulhados na mais absoluta ignorância a respeito daquilo que faziam.
«Quando vier o Filho da Humanidade na sua glória e todos os anjos com ele, então se sentará sobre o trono da sua glória. E serão reunidos diante dele todos os povos e ele separará uns dos outros, tal como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à esquerda. Então dirá o rei àqueles que estão à sua direita: “Vinde, benditos do meu Pai, e herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Eu tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber; eu era estrangeiro e acolhestes-me, estava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me, estava na prisão e viestes até mim”. Então lhe responderão os justos, dizendo: “Senhor, quando te vimos esfomeado e te alimentamos, ou quando sedento e te demos de beber? Quando te vimos estrangeiro e te acolhemos, ou quando nu e te vestimos? Quando te vimos doente ou na prisão e fomos encontrar contigo?” E o rei, respondendo, dir-lhes-á: “Amém vos digo: quanto fizestes a um desses mais insignificantes dos meus irmãos, a mim o fizestes”. Então dirá aos do lado esquerdo: “Ide para longe de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. Pois eu tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber; eu era estrangeiro e não me acolhestes, estava nu e não me vestistes; estava doente e na prisão e não me visitastes”. Então lhe responderão estes, dizendo: “Senhor, quando te vimos esfomeado ou sedento ou estrangeiro ou nu ou doente ou na prisão e não te servimos?”. Então ele lhes responderá, dizendo: “Amém vos digo: quanto não fizestes a um destes mais insignificantes dos meus irmãos, a mim o não fizestes”. E irão estes para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna» (Mt 25, 31-46).
Nem os justos e nem os malditos sabiam que, quando das suas ações e omissões, era a Cristo que ajudavam ou ignoravam. A ignorância daqueles que não percebiam que crucificavam a Deus se repete na parábola do Juízo Final e é no âmago dessa mesma ignorância que os justos são separados dos malditos, as ovelhas são apartadas dos cabritos. E isso se dá porque, no fim das contas, não é a nossa consciência que edifica o nosso caminho de salvação, não é o esforço desempenhado para servir a Deus que nos garante o lugar à direita do rei eterno. O que nos salva é a interioridade que em nós se revela quando sequer sabemos o que estamos a fazer, quando, sendo novos homens e novas mulheres em Cristo, Ele se dá a ver em nossas ações sem termos ciência de tal feito, sem nem ao menos termos desejado que ali Ele estivesse.
Uma das maiores místicas francesas do século XX, Simone Weil, captou a essencialidade da ignorância – que ao mesmo tempo pode nos redimir ou nos condenar – de forma muito mais clara do que eu jamais seria capaz de fazer:
«Todo ato deve ser considerado não do ponto de vista do seu objeto, mas da sua impulsão. A questão não é “Qual é o objetivo?” É “Qual é a origem?” “Eu estava nu e vestistes-me”. Este dom é simplesmente uma indicação do estado daqueles que agiram dessa maneira. Encontravam-se num estado que lhes tornava impossível não alimentar os famintos e vestir os nus; eles não fizeram isso de forma alguma por Cristo, eles não puderam deixar de fazê-lo porque a compaixão de Cristo estava neles. [...]. O bem que é feito desta forma, quase a despeito de nós mesmos, quase com vergonha e desculpas, é puro. Toda bondade absolutamente pura escapa completamente à vontade. A bondade é transcendente. Deus é bondade.
“Eu tive fome e destes-me de comer”. Quando foi isso, Senhor? Eles não sabiam. Não devemos saber quando praticamos tais atos. Não devemos ajudar o próximo por Cristo, mas em Cristo. Que o “eu” desapareça de tal forma que Cristo possa ajudar o nosso próximo através da nossa alma e do nosso corpo. Que possamos ser o escravo que seu senhor envia para ajudar alguém em apuros. A ajuda vem do mestre, mas é destinada ao sofredor. Cristo não sofreu por seu Pai. Ele sofreu pelos homens pela vontade do Pai» (1947, p. 86).
O que Simone Weil parece revelar é que não só a condição da ignorância nos é insuperável, mas que reconhecer que somos assustadoramente ignorantes é a condição essencial para recebermos a misericórdia destinada àqueles que «não sabem o que fazem» (Lc 23,34). O propósito de fazer o bem e a razão pela qual se deve praticar a virtude nunca podem estar embasados na certeza de que, por meio de determinada ação, estaremos servindo a Cristo. Pelo contrário, é quando estamos mergulhados no oceano da nossa ignorância que, por meio da fé, podemos esperar que a Bondade de Deus se faça perceber em meio às nossas parcas obras. Se soubermos, com convicção, que estamos a ajudar a Cristo na figura do pobre, do destituído, do preso, do doente, então já não estamos a servir a Cristo, mas ao nosso próprio ego que procura ser inflado através das nossas aparentes bondades. Em outras palavras: uma ação humana só pode ser verdadeiramente santa quando embevecida da ignorância daqueles que vestiam e davam de comer a Cristo sem nem saber o que faziam; só haverá algum vestígio de santidade em nosso recôndito mais profundo quando a solidariedade com os irmãos for algo da ação de Deus em nós e não da nossa ação para Deus.
Anthony de Mello, jesuíta indiano, parecia entender profundamente que a experiência da santidade é, sobretudo, uma experiência de ignorância, pois dizia ele que «no momento em que você está consciente de sua santidade, ela azeda e se torna falsa retidão. Uma boa ação nunca é tão boa como quando você não tem consciência de que ela é boa – você está tão apaixonado pela ação que não tem consciência de sua bondade e virtude» (1991, p. 48).
Os justos da parábola do Juízo Final eram pessoas tão apaixonadas pela bondade que, sendo bons, permaneceram ignorantes da suprema bondade de suas ações até o derradeiro momento. A bondade da santidade, pois, é sem esforço, uma vez que o esforço «pode mudar o teu comportamento, mas não pode te mudar» (DE MELLO, 1991, p. 48). Se soubermos que o nosso comportamento é bom, se formos demasiado conscientes de nossas próprias virtudes, se não formos tão abissalmente ignorantes quanto as ovelhas amadas por Cristo, então a nossa pretensa santidade apenas servirá para inflar o nosso próprio ego.
Sobre o ego, dizia Anthony de Mello:
«O teu ego é um grande técnico. Não pode ser criativo. Aplica-se a métodos e técnicas e produz pessoas supostamente santas que são rígidas, mecânicas, sem vida, tão intolerantes com os outros como são consigo mesmas – pessoas violentas, o exato oposto da santidade e do amor. O tipo de pessoas “espirituais” que, conscientes da sua espiritualidade, procedem então à crucificação do Messias» (1991, p. 49).
Não há, enfim, como sermos santos sem ignorarmos por completo tal santidade; não há como sermos bons se tal bondade é motivo das palmas do próprio ego, esse ego que nos petrifica em caricaturas de santidade que nada conhecem da ternura do Pai; não há como sermos cristãos se algo em nós está a nos conceder uma falsa percepção de conhecimento sobre o suposto valor das nossas virtudes e bons atos.
Toda a humanidade está envolvida no drama daqueles que crucificaram o Cristo sem saber o que estavam a fazer, mas também é toda a humanidade que tem a chance de ser redimida pela ignorância de dar a vida pelos mais necessitados sem sequer notar que cada gesto de bondade a eles direcionado é um gesto de amor a Deus. Assim, se por um lado a ignorância pode nos condenar, é ela o único caminho para a nossa salvação: de nada adianta fazermos o bem se sabemos que estamos a fazer o bem, pois o verdadeiro Bem só brotará em nós quando não mais portarmos conosco a certeza da retidão das nossas ações, quando aprendermos, finalmente, que os nossos corações devem estar preparados a fim de receber, com a passividade da ignorância necessária, Aquele que é capaz de emergir em nossos feitos mais banais.
Se é verdade que a parábola do Juízo Final é capaz de dar medo a qualquer um que a escuta, igualmente digno de temor é o momento em que Jesus anuncia: «Como é estreito o portão e apertado o caminho que leva à vida! E são poucos os que o encontram» (Mt 7, 14). Se é tão estreito o portão que leva à Vida, será que conseguiremos passar por ele se estivermos carregados de tantas certezas sobre o mérito das nossas ações, sobre o nosso grau de santidade, sobre as nossas virtudes? Acredito – e é com um pouco de medo que acredito – que só passarei pelos portões estreitos quando, finalmente, pela ação de Cristo em mim, eu puder andar por este mundo despido dos meus pretensos méritos e conhecimentos, caminhando unicamente na certeza de que é somente pela minha ignorância que talvez, um dia, eu e tantos outros poderemos escutar: «Porque vocês não sabiam o que faziam, venham a mim, benditos do meu Pai!».
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