Sobre o pródigo...

 

(Metropolita Anthony Bloom, Bispo da Igreja Ortodoxa Russa)

Ainda a parábola do pródigo a ressoar por dentro: na casa em que se vive, quantas não foram as vezes em que o pensamento delirou pela retirada, quantos não foram os momentos em que o coração ousou aventurar-se em projetos de uma nova estrada? Pois, aqueles que vão, quando voltam, voltam trazendo ares que aqui não são vistos, novidades de um caminho ainda não experimentado, odisseias de um passo alastrado, Ulisses amarrado ao mastro ao canto das sereias. Canto que, daqui, só se imagina pelo horizonte, à sombra de paredes que tanto escondem.

Mas há, também na casa do pensamento, um outro lado: há o delírio de envelhecer com a casa, há o desejo de se fazer inscrito nos tijolos, de ser um dos tijolos dessa construção encerrada. Há o perigo de ser pródigo de coração, pródigo de ressentimento, semelhante ao Pai em tudo, menos em compreensão, menos em misericórdia e entendimento.

E há, enfim, o Pai. Há quem esteja disposto a abraçar quem entra e quem sai, há quem morra de mortes caladas nas despedidas e quem viva de vidas vigoras nas voltas, sendo tantas as idas e vindas que tudo é ocasião para banquetear o novilho gordo: o filho encontrado, o filho miserável, aquele filho que para todos estava morto, menos para o Pai, porque para Ele nada morre, porque não há quem não engorde de vida naquele abraço que tudo reconstrói.

E, dentro de mim, são tantos os pródigos e os irmãos dos pródigos que precisam escutar aquilo que o Metropolita Anthony Bloom falava: "somos tão amados por Deus que podemos ir ao seu encontro sendo bons ou maus, na esperança de que Ele nos receberá de braços abertos; apenas Ele é quem chora pelas nossas faltas e pecados, esse choro de compaixão, de perdão, de amor". E, enfim, o que eu desejo é ver os pródigos e os irmãos dos pródigos que em mim habitam se encontrando nesse abraço, repará-los bem quando ouvirem, com um coração arrependido e não mais ressentido, mas apenas amado: "Filhos, vós todos estais sempre comigo e todos os meus bens são vossos".


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