Mais alguns poemas
I
Tantos quiseramCarregar o sentimento do mundo.
Mas as imagens guardadas dentro,
As breves anotações em carne viva,
Tudo o que peleja ardente,
Pois que reside entre o beijo e o alento
Quem carrega?
Esse amor de água miúda,
O prazer que só é prazer porque dura,
Tão diferente daquela histeria adolescente
Esses erros que não findam nunca,
Mas também a alvura que hoje nos cerca,
Quem carrega?
Quem carrega esse cansaço de sábado
Que nos enlaça em ondas de ternura?
Quem nos gira nessa dança,
Tão desarmados, tão desnudos,
Ao ritmo de uma vida que é tão pouco,
Mas que é tudo?
E os nossos corações
Endurecidos de tanta liberdade
E que pesam mais do que o mundo...
Quem os carrega?
II
É depois do lugar
Onde os nomes que te damos
Não desvelam a tua face.
É ainda depois de onde
As nossas empoeiradas piedades
Nada dizem às raízes que em nós semeias.
Depois de onde o que nos separa e estonteia
É uma frágil parede cumulada de chagas.
É por trás do que em nós emudece,
Para além do que esconde uma casa.
É onde ninguém vinga nossas faltas,
No gozo da noite em que aceitamos a tua graça.
É ainda mais longe
O lugar em nós onde fazes morada.
III
Essa tua estrada
Que em ti não se acaba.
Peregrino do regresso às coisas íntimas,
Quando a bala de um canhão te encerrava
Um fogo diferente
Queimou ardente em tua alma:
Finalmente um campo digno
Das tuas destemidas batalhas.
E após o fulgor das noites mais altas,
Após as damas dos teus sombrios suplícios,
Por tudo que diante de ti se acabava,
Descobriste que amar era o teu exercício,
Que amando não se apagava a tua brasa.
Então em nós derrama sem demora
O conhecimento daquilo que brilha dentro,
A sede de uma nova história
Que incandesça o nosso entendimento,
Que dignifique a nossa vontade,
Que enobreça a nossa memória.
(31 de julho, dia de Santo Inácio de Loyola)
IV
Para que na ferida profunda
Ainda frutifique a vida:
Para isso eu te procuro.
Que se não recolho o corpo
Cansado das pequenas olimpíadas,
Se já não consigo borbulhar o desejo,
Ao menos te entrego o enigma
Do abrigo que em ti descubro.
Sinto-te perto
E não invento desculpas, não ainda.
Tentado a abandonar o segredo,
Retorno com os bolsos vazios,
Um coração dormente,
E não me afugentas,
Mesmo que eu quisesse perder-te,
Mesmo que eu quisesse partir,
Somente.
Já não tenho medo dos teus olhos
Que não recusam o que eu escondo
Quando do fundo do meu poço
Encontras água fresca.
Oásis do meu corpo,
Nosso apogeu em uma prece,
Esse encontro não finda
Apenas amanhece.
V
Sentas em silêncio,
E acendes a tua vela:
É quando desfilam teus desejos.
Observas a parte que queima em gozo,
O teu trigo que arde e que ama,
Reparas na parte que repele a chama,
Escassa flâmula de separado joio.
E agora pelo fogo purificado
Qual âncora ainda te prende?
Qual brisa te apaga nessa madrugada
Se já desatados os nós,
Se já perdoadas as vidas passadas?
Levantas e percebes, contudo
Que não melhoraste em nada.
Ainda em ti as mesmas faltas,
Ainda o antigo ruído sobre a alma
Que a tua melhor vontade não cala.
Não és homem novo,
Não são teus os melhores planos,
Não tens solução para teu choro.
Pouco importa,
Não era o progresso da claridade
Aquilo que procuravas
Quando veio em teu socorro
Um pouco de verdade:
És verdadeiramente amado
E isso basta.
VI
Há aqueles dentre nós
Que nada disso desejam:
Os impérios, a cobiça,
Uma vida de vigores vencidos.
Há aqueles dentre nós
Que por muitos já foram esquecidos,
Há os filhos perdidos, desviados,
Há aqueles que amam
Em intervalos de ausência
Sobre o descampado.
Somos nós também
Os que negaram essa pertença,
Os de uma alegria fatigada,
Mas não menos alegre.
E que ainda haja brio,
E que ainda haja sangue,
E que ainda haja carência,
Tudo isso acolhemos,
Nós que somos como aqueles,
Aqueles perdidos,
Aqueles que já não se perdem.
VII
Pouco recorda o êxtase da juventude
Essa ternura que rebenta
No teu rosto já marcado.
Mas por dentro
Amalgamado e com tanto rastro
Ainda habita o sangue fervente
Ainda resta tudo aquilo que se sente
Ainda há a memória de um amor passado
Que desvela as carícias do presente.
Meu amigo, já não é mais cansado
Que se anda,
Da antiga liturgia das distâncias
Eis que surge a vingança
De banquetear a presença,
A ousadia de redesenhar mapas,
A brandura de uma nova crença,
O risco de tropeçar em palavras empoeiradas:
Uma tal de esperança,
Uma tal de ardência.
VIII
Carta do presente à amiga do futuro
Amiga,
Já nos achamos tão crescidos
Que cedemos abrigo ao cansaço que nos rodeia
E até mesmo o afeto caudaloso foi vendido
Nesse tempo de seca,
Tempo de gole contido.
Mas amiga,
Mesmo que estejamos tão crescidos
Ainda nos agita um coração de criança,
O desencanto que sorvemos não sacrificou
A inocente esperança de mudança:
As manhãs não nos abandonaram,
Ainda que dormentes, ainda que sofridas,
Não nos abandonaram,
Não ainda.
Não estamos mortos, amiga,
Não é hoje o dia do nosso espólio,
E se tiver de desmaiar o teu corpo
Que desmaiei em leito de gozo,
Se tiverem de se fechar os teus olhos,
Que se fechem para perscrutar o que há dentro:
As tuas raízes que vibram, que respiram,
Que deliram na possibilidade do encantamento.
Sim, fomos mais jovens um dia,
Não temíamos as doenças,
Não éramos inimigos
Da nossa carne, do nosso alvoroço,
Mas chega da tinta melancólica,
Chega do rebuliço que nos nauseia,
Chega de desperdiçar esse consolo.
Desperta, amiga,
Ainda o amor te é oferecido
E já não cantará qualquer vitória
O que em nós foi exaurido.
Volta e sente
O nosso vislumbre abrasado,
Volta e sente
O respiro leve do nosso alívio,
O nosso ardor repovoado.
Comentários
Postar um comentário