Interstício
(Exposição na oficina de cerâmica de Brennand)
- um interstício para reparar o que há dentro: um mistério todo azul de imagens, os bichos que no azul nadam, perambulam, peixes tão antigos quanto a memória, essa memória que vem de antes e que por dentro faz morada mesmo nos recônditos mais apagados, nos lugares já abandonados onde não alcança nossa mirada, alguma mistura de marrom, azul e laranja nas barbatanas que insistem em abrir caminho, esse bicho todo manso que em nós habita e a surpresa de que, depois de tanta guerra, tenhamos sido nós a abrigar um monstro que já não é mais monstro, uma guerra que agora é paz sossegada, uma escuridão que só é escuridão por fora, porque por dentro, já bem dentro, tudo brilha e há espaço para um pouco de delírio, e pensar que é aqui a possibilidade das cores, um coral verde que não revela o que os bichos fazem à noite, tudo salvaguardado em segredo, segredo revelado apenas em um interstício para reparar o que há dentro, esse mundo interior que também tem erros e acertos, esse azul todo redimido e amado -

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