Um futuro cheio de esperança, um presente cheio de espera
É verdade o que dizem: lançar as bases de um futuro cheio de esperança é uma tarefa necessária, inadiável. Mas o que poucos ousam sussurrar em meio às noites em claro, aquilo que todos sentem com ardência e com um pouco de desamparo, é que ter esperança exige esperar, requer atravessar a noite que é ainda mais noite diante da incerteza do que virá, todos nós, mesmo que não queiramos admitir, já um pouco cansados dessa espera alastrada que parece não findar.
Mas é que, de verdade, há coisas que não findam nunca, há perguntas que insistem em sussurrar no coração. Alfred Delp, jesuíta sentenciado à morte na Berlim nazista de 1945, escreveu em seus diários de prisão, no período em que se preparava para o seu último natal, que "[...] os anjos do advento não são aquelas figuras brilhantes e jubilosas que alardeiam a maré da bonança a um mundo em espera. Silenciosos e discretos, eles entram em nossos surrados quartos e em nossos corações como sempre fazem. No silêncio da noite, eles nos colocam diante das questões sobre Deus [...]".
Nunca findam essas questões engorduradas de espera, postas no coração no silêncio da noite que agora se atravessa, e as inquietações que elas provocam permanecem, fazem morada, não se importam com a angústia que prevalece e com a ardência que não arrefece. É essa espera, a oportunidade de ver o meu coração se derramar diante de questões que eu nem sabia serem minhas, diante de caminhos que eu sequer reconhecia como possíveis, é essa espera que me assola e que, de algum modo, me consola e me revive.
Recentemente, em um momento de confissão dessas coisas íntimas, falei a um padre amigo que eu sinto uma grande dificuldade em esperar pelo desenrolar de algumas escolhas ainda por fazer e que a indefinição da vida me coloca em um lugar de hesitação diante do amor de Deus. Foi quando eu me dei conta de que o anseio pela resolução e pela definição de todas as minhas encruzilhadas não é um problema de Deus, mas um problema meu, e que, talvez, seja necessário que um futuro cheio de esperança seja testado por esse presente cheio de espera, escutando as perguntas que os anjos trazem ao peito para, carregado delas, continuar a esperançar e a esperar sem medo.
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