Tudo acontece. E nem sempre por um motivo.

 

Tudo acontece. E nem sempre por um motivo. Quando eu ainda estava no ensino médio, a diretora do colégio onde eu estudava sofreu um aborto espontâneo daquele que seria o seu quarto filho, e, algumas semanas depois da tragédia, ela nos disse que a pior coisa a se fazer quando um amigo está sofrendo é consolá-lo com a frase "tudo acontece por um motivo". Há tragédias, gozos, bênçãos, choros que simplesmente acontecem. E sem motivo algum que lhes dê lastro. 

Ultimamente, estive pensando em alguns amigos que costumam dizer que "Deus nos quer felizes". Mas é uma obrigação ser feliz em um mundo onde tudo acontece, onde tão pouco é guardado e muito é subtraído? E isso não é melancolia, divagação sem juízo, um convênio gratuito com os aflitos. É apenas ter aproximado um pouco mais os olhos da verdade da vida: a vida é bonita, mas também é muito dolorida. É, também, ter em mente que somos amados, amamos e um dia nos vamos, e que o resto acontece nesse meio tempo em que tudo esperamos e nos parece pouco aquilo que vemos chegar. Aprender a deixar o coração fazer parte dessa falta que cresce é um dom terrível, mas não deixa de ser um dom, é o que eu acredito.

Então, talvez não sejam por um motivo as nossas tragédias. Talvez não sejam por um motivo o coração partido, o beijo escondido, o filho perdido. Simplesmente, tudo acontece e não há quem faça que algo pare de acontecer, mesmo essas pequenas mortes que sorvemos enquanto o dia amanhece, e, já ali, sabemos que nada sairá como planejado, ou as vezes em que não temos palavras diante do amigo que sofre, ou mesmo quando somos nós mesmos que sofremos e a pergunta inquietante que nos resta é: "será que, depois de todo esse tempo, eu não já deveria ter aprendido?".

Em um mundo em que tudo temos de conquistar e ganhar, nesse turbilhão de acontecimentos que nos pegam desprevenidos e desnudos, será que não é justamente perante Deus que podemos desmantelar os clichês de felicidade e de plenitude, será que não é perante Ele que podemos testemunhar, com honestidade e sem culpa, esse vazio que há dentro e que nem mesmo Ele preenche? (Nem Ele, nem os beijos dados num outro dia, nem os relacionamentos tentados e falhados, nem as amizades envelhecidas e desgastadas, nada...?)

Aqui, onde tudo acontece, onde nada nos é suficiente, onde há muito se foi a inocência sobre o custo do amor (enorme!) e sobre a confiança no futuro que se anuncia... Será que não é neste lugar de espera em que devemos estar? Esperando aqui, onde tudo acontece, o amor, algum carinho, uma lágrima, e nem sempre por um motivo?


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