Sensualidade e palavra


Se, por algum motivo, não mais nos interessa a sensualidade de um encontro fortuito, de acasos destrambelhados e sem significado, daquilo que o corpo excreta com uma facilidade que nos apavora, então por onde podemos ainda achar algo que nos erice, ainda algo que borbulhe e efervesça o afã da carne jovem?

É que há sempre essa sede profunda por uma gota qualquer que umedeça o que em nós é deserto, essa necessidade de que alguém nos toque os pés e neles derramem um bálsamo cujo cheiro confira às nossas carnes algum vestígio de vida e de companhia. E quantas ganas de viver são desperdiçadas em situações que nada disso nos podem oferecer... 

Não se trata de ser angelical, de desviar do corpo aquilo que ele pede, de pretender tramar cruzadas contra as carências doloridas - e quem não as tem? Mas bem que essas carências, ao invés de darem testemunho de nossa fraqueza, poderiam ser alegres estandartes de gozos mais honestos. Quando, por exemplo, se deu a última vez em que, sentados à mesa - a mesa, esse lugar mais íntimo do que tantas camas - deixamos lançar em jorro sobre o amigo as verdades que se escondiam por dentro? Quando a última vez em que sentimos desde os quadril um arrepio extravagante ao nos vermos devorados pelo mistério de uma vida que nos engole por inteiro, que nos molha com o caldo de palavras transbordantes? Quando a última vez em que fiamos a alguém as nossas canduras mais ardentes, o líquido cristalino das nossas inocências atrozes, mesmo que o corpo não pudesse ser tocado, mesmo que, para todo esse gozo, apenas nos fossem permitidas as palavras? 

Poder não temer a vulnerabilidade que as nossas palavras revelam é sustentar a sensualidade que nos habita, é poder fazer das nossas carências uma sinuosidade que acolha tudo o que somos. Pois tem sido tão fácil observar quem, mesmo acreditando ser maduro nas matérias da carne, porta consigo um pavilhão de profundezas que poderiam ser iluminadas com essa sensualidade que aos poucos se vai deixando descobrir. Não o sensual barato com o qual nos acostumamos, não a sede insaciável pelo gozo efêmero, mas, de repente, essa atitude de estarmos sempre abertos à vida que nos cerca e de nos deixarmos tocar pelo mundo que nos impulsiona em direção ao que é maior do que nós mesmos, ao que, em um abraço, nos acolhe, nos perdoa e nos estima para além das fraquezas, para além das nossas batalhas, para além dessa misteriosa casa que é o corpo.

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