Poemas de fevereiro e março
I
Depois de um e de outro adeus
Depois dos deslumbramentos perante abismos
Depois das possibilidades mortas
Depois dos deslumbramentos perante abismos
Depois das possibilidades mortas
Para só então se chegar
A essa terra sem castigos
E ao momento em que se encontra vivo
Um coração fremente de criança
Além das poças de água da infância
E o que mais se pode guardar
No baú das lembranças
Para que tudo se repetisse
Na passagem da hora e do ritmo
E para que eu respirasse assim
Como se o tempo não pudesse devorar
Todo o amor de uma vida
Que começa a crescer em mim.
II
Em dias como hoje
Em que peregrino pela frágil vida
Que carregas em tuas mãos
E de repente um movimento estonteante
E o perder de vista alguma lembrança
E qualquer queda que me emudeça...
Mas nunca dura essa tontura
E por isso continuas a me levar
A algum outro canto, a outra errância,
Mesmo com o pacto quebrado,
Mesmo que por vezes eu esqueça.
Mas se tiver de ser com o coração enlamado
Então assim seja
Pois ainda é tanta a candura que arde
É tão cheia de carne essa inocência primeira
Que como um novilho já encontrado
Não ignoro onde descanso
Nunca esqueço
- E é sempre com alguma lágrima
Que não esqueço -
Por qual rachadura adentra
O teu toque em meu corpo
E esse gozo que verdadeiramente desejo.
Que eu te encontro,
Não mais duvido
E pelo o que de mim jorra
Ao te falar, ao te receber,
Estremeço.
III
Em errância pelo alpendre da casa,
Em profusão de prazeres na noite amarga,
Em grandiosos passos na estreita via,
Cantaste, homem antigo,
Em língua estranha o teu esquecido rito
Que eu não compreendia e nem podia.
Cantaste enquanto meu gesto arrefecia
E com que toque me restituíste o corpo,
Sem sacrifícios a minha labareda e o teu fogo.
É teu o nome de santo, é teu este consolo.
Fora de ti me encontras,
De novo
De novo
E mais um pouco.
IV
Dá-me esperança sem causa
Quando eu sentir não haver vida
Para além dessa noite de eternidades
Dá-me o esquecimento da prudência
Ao ritmar o coração em promessa
De uma instante que se anuncia de arrebate
Dá-me olhar no espelho
Mesmo depois da viagem
Mesmo se diferente o enlace
Mesmo se latejante a dormência
Dá-me qualquer passo de uma nova dança
Quando eu disser que nada vibra
Que não há gozo a insuflar a cadência
Dá-me não ter vergonha dessa humanidade
E dos cheiros e da tarde e do jorro
Dá-me o amolecimento das minhas pedras
Dá-me ser de carne o meu choro
Dá-me enfim o florescer da vida
Sobre o meu ainda jovem corpo
Enquanto descanso neste lugar
Enquanto espero o teu sopro.
V
V
O trejeito do ressentimento já te iludiu
Não te ilude mais
Pois há uma casa
Com paredes onde dar graças
Graças por saborear os teus movimentos
Por sentir desde as entranhas a massa
Dos sentimentos que afloram
Pois não há vergonha nesse teu corpo
E tudo nele é teu jardim
Não sendo um vagabundo tesouro
Não sendo de qualquer jasmim
O cheiro que exsuda em tua páscoa
Pois mesmo que não sejas tu
O novilho do sacrifício
E não sejas tu
O chamado a holocaustos
E porque só te chamam
Te chamam e te chamam
A amar desavisado
Não mais te ilude a vingança
Não mais te escapa a lembrança
De ser assim amado
E dessa ternura.
VI
VI
Foi de uma tristeza sem tamanho
O roxo daquela tarde
Em que me vi nu.
Achei preciso me esconder,
Pôr roupas que negassem o feito,
Mesmo que apertados os sapatos,
Mesmo que não meu aquele jeito.
E no desespero que me tomava,
Nos esconderijos onde me encontrava,
Como alguém poderia me achar?
Como voltaria eu, um dia, a amar?
Mas à brisa da tarde,
O Senhor andava pelo jardim,
E apesar dos meus disfarces,
Apesar da caricatura que fiz de mim,
Ele me enxergou,
Me estendeu a mão,
Se aproximou.
"Fiquei com medo,
Porque estava nu
E me escondi",
Eu disse choroso,
Esperando castigos.
Dele, contudo, não ouvi gritos,
E mesmo que eu estivesse
Tão entristecido,
Me pôs a sentar entre os lírios,
Me despiu com tanto amor
Das máscaras que escondiam o desejo,
Dos sapatos que prendiam o passo,
Das roupas que disfarçavam a ferida.
E foram lágrimas muito antigas
Aquelas que eu derramei,
Enquanto ele ousava tocar
O meu corpo chagado,
As minhas histórias inacabadas,
A minha nudez aflita.
Foi diante daquele amor
Que pela primeira vez
Não me assustou estar nu,
Não quis ser outro,
Não me doeu ser quem sou...
Hoje já perdi a conta das vezes
Em que Ele me salvou.
VII
VII
Para além
Do instinto da carne jovem e das premonições
E mesmo bastante depois
Do que marca no rosto os cantos da velhice
Em qualquer lugar
Onde se descobre a fome e se a tem por irmã
E de uma e outra vez se deixar queimar
Nessa fase de obediências sutis
Para que seja mais
Do que as histórias de antes
E para decifrar o retalho de indícios
Da companhia que permanece
Para além de tudo.
VIII
Porque é o dia do expurgo amoroso
Que silencioso me oferece em cálice
O sangue da vida que sorvo
Pelas veias abertas do teu corpo
A aplacar a fúria do meu desacordo.
Porque é o dia em que se inaugura um passo novo
E já não é cedo ou tarde
Não se conta a falta ou o disfarce
Pois o que importa é ter aqui chegado
- e o que mais se dirá da fome,
dos dias pelo desamor machadados,
do desejo sôfrego já abandonado? -
Porque tendo sido desfeita
A lógica do sacrifício repetido
E por quase ter sido minha
Uma cruz que se arrastava
Consorte de quem se esvaia
Pela falta dos prazeres tolhidos
Porque de tudo aquilo que foi vivido
Se abre a passagem da verdadeira Vida
Que não apresenta caminhos e verdades
Sem antes desvencilhar os medos
Em constelação de perguntas
Em saliva espessa de vontades.
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