Amor, essa xícara de café



Amor, essa xícara de café.

Já se foi o tempo de pensar o amor como uma sobremesa ao fim do almoço, como a cereja vermelha do bolo, um toque qualquer desnecessário, mas sedutor e desejoso. Não, o amor não parece ser uma fantasia doce, uma espera insulínica de algo que, se vem, engorda, se não vem, definha. Deve ser mais do que afeiçoar-se pela distração do açúcar que derrete à boca, mais do que caninamente meter o rabo entre as patas e salivar por carícias. Para além da sobremesa devorante das coisas, lá deve estar o amor. 

Algo mais parecido, talvez, com a xícara de café à mão. Algo para beber e despertar os primeiros raios de uma manhã de sol em mim e nos outros, um ritual de bebida quente que dissipa as maresias do pensamento e me faz acordar à vida abundante das horas matinais. E não importa se é doce ou amargo, se é ralo ou espesso. O que importa é que é gratuito, íntimo das palavras banais, encantado pelo que existe de mais ordinário nesse corpo necessitado de fazer amizade com as constâncias.

Já se foi o tempo de pensar o amor com a extravagância da sobremesa. O amor está mesmo naquilo que sustenta a vida aos poucos, sem grandes alardes, a desabrochar a vidinha de todos os dias que é tudo o que eu tenho, nesse pequeno gesto que me abre a porta ao mundo, na bebida quente moída por tantos, escaldada por outros, servida por quem sequer sabia estar a entregar o amor, essa xícara de café.

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