Poemas de janeiro

 


Enquanto nasce um ano, enquanto nasço para os meus caminhos, enquanto o sal e a luz indicam a direção ainda escondida, me sustentam alguns poemas.


I

Sendo apenas miragem, pouco importa!
Se ainda sei onde há a sombra
Que me permite o descanso,
Se permanece o amor
Que me desenha o destino,
Se me toma pela mão a inocência
De uma língua que descobre o tom
E o ritmo da saudade,
Então é possível olhar para dentro
E dizer, aliviado: é bom, não faz mal, 
Deve ser coisa da idade.


II

O desejo 
De saber 
Me dar,
De saber
Amar,
De saber
Experimentar.
"Não é o saber
Que vai te consolar,
Mas todas as coisas
Internamente
Saborear".
O desejo,
Então,
De saborear
O saber
Criar,
O saber
Desejar,
O saber
Esperançar.
Saborear
O meu corpo
De semente
E a terra úmida
Onde me plantar.
Qualquer lugar bonito
Para,
Finalmente,
Desabrochar.


III

No lugar das esperas contínuas
Onde derramo em teus braços
As perguntas tatuadas ao peito
Toco o inacabado sentir das coisas,
Enquanto tuas mãos, em meu rosto,
Desvendam-me à dança das flores.

No lugar onde o silêncio das palavras
Revela-me o que há de sonoro em teu jeito
Sei por onde arde o desejo,
Sei porque revelaste os lírios e as cores,
Sei da tua sede e da tua fome.

Somos, eu e tu,
Parte de um mesmo banquete
Enquanto seguimos a outra terra
Ainda sem nome.


IV

Por muito quiseste da vida
O congelamento de uma fotografia
E esqueceste o que pelas margens
Movia-se à ebulição.

Por muito construíste a sólida casa
De inalterados entendimentos, por muito
Sobreveio o silêncio anestésico
Imune ao burburinho do encontro.

Mas foi por pouco
Que não detiveste a brisa quente
De passar despercebida por tua janela.
Foi por pouco que não evitaste 
Que a vida te tomasse de assalto,
Que te encontrasse homem livre
De coração em barro molhado.

E eis que em sinuoso desacato
À retidão das tuas regras,
A vida ainda te molha,
Entre todas essas pedras,
Por muito.


V

Observa, estou aqui!
Entende essa verdade corriqueira, 
Tira o olhar de tão alta estrela
E vê-me neste chão de areia,
No que em ti é paixão verdadeira.
Repara bem, estou aqui! 
Mesmo no bater descompassado
Do teu coração mergulhado,
No rio caudaloso dessa juventude.
E não teme o mergulho, 
Não teme o coração apaixonado,
Não teme ser de carne,
Que depois eu te pego, te afago,
Te faço a barba, te enxugo
E passo a noite a te contar
Das minhas diversas formas de te amar.
Faço tudo isso, menino,
Porque estou aqui,
Porque conheço bem a quem escolhi.
E não preciso de que tudo compreendas,
Não quero que tudo entendas,
Esquece o teu jeito de sabido.
Olha bem, não estou escondido:
Se tu sentires o que borbulha no peito,
Se tu perceberes aonde te leva o desejo,
Vais perceber, menino,
Antes que o homem bata à porta,
Que estou aqui!


VI

Vai, ainda é tempo!
Cresce nos redutos adormecidos,
Oferece em ação de graças 
Os adornos e os teus nomes escondidos
Acha provérbios mais generosos contigo
E põe termo à palavra esquecida.
Vai, não corre o risco de perder
O desabrochar da tua vida,
Não teme a emboscada, o perigo,
Tudo isso é medo muito antigo,
E ainda te sobram os anos,
Ainda te resta qualquer grão de amor
Onde tecer abrigo. 
Então vai, que uma doçura se aproxima
Mesmo que as mãos nada carreguem,
Mesmo que os olhos pouco enxerguem,
Mesmo que a voz seja tão contida.
Vai, porque é hora de ir
Hora de ser bálsamo para as feridas,
Precisa hora de partir.

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