Olhai os lírios do campo (ver novos todos os caminhos)



Não é algo simples perceber o que está perante os olhos. Um olhar desatento pode, muito facilmente, não se dar conta da realidade que circunda a vida. E é assim que, se eu olho para o que me trouxe aqui e se me pergunto para onde vou, qual caminho faz meu coração bater mais forte em desejo, devo treinar o olhar para que seja possível apreender algo dos lírios do campo, esses lírios que crescem nos caminhos da minha vida.


É que percebi que não se peregrina em caminhos de pedra dura. Se o chão é pedregoso, se os pés doem, se o calor escalda o corpo, nada disso é capaz de esconder a história mole da vida, o barro molhado que me constitui, o desejo de seguimento que em mim brota, o desejo de seguir Aquele que me faz olhar os lírios. Não creio que Ele me exija resoluções absolutas, ritos perfeitos, estritas observâncias. Mas se algo eu aprendi da Sua Presença é que Ele constantemente me convida a observar com atenção os lírios, essas suas tentativas de embelezar os meus caminhos e de fazer com que eu siga em frente, sempre em frente.


E o melhor é que Ele não me transforma em pedra se eu olho para trás. Se eu penso no que pode ficar, se eu penso nas outras oportunidades, nas outras situações… Ele as entende e também as deseja, desde que eu saiba ver que, a partir do nosso encontro, todos os caminhos se transformam em novidade acompanhada. Sou eu que, às vezes, não entendo, querendo mergulhar em um mar de certezas que Ele não promete. Tive de perceber que não há promessas de certezas, mas há, sim, uma promessa de confiança, essa confiança que barra o meu ceticismo e me joga perante a realidade do lírio que teima em brotar nas minhas errâncias.


É, portanto, só enquanto eu sigo, enquanto eu caminho diante das opções que a vida generosamente me oferece, que eu me dou conta de que o passado pouco importa. O que importa é ter chegado a esta hora, a este minuto, a este segundo em que o olhar se abre e vê tudo novo, como se um sopro de vida me fizesse sentir vivo repetidamente pela primeira vez.


Ainda tenho tantos medos, bem sei. Olho a minha história, a vejo tão diferente da história de alguns outros, vejo que meu caminho de encontro com os lírios foi tão diverso. As diferenças ainda me amedrontam, é verdade. Penso se é para mim esse caminho, se é meu esse chamado, se é de vida essa sede quente no peito. Mas daí me lembro dos lírios. Lembro-me que Ele só me manda olhar, reparar bem, sentir profundamente. Lembro-me que, daqui em diante, tudo é novo, tudo é fruto da sua presença. Assim, vou me confirmando em uma jornada que, mesmo se feita em Companhia, é feita, principalmente, através do meu olhar que encontra o olhar d’Ele. Sei que no amor que brota desse olhar ninguém poderá mexer. Daí eu sigo em frente. Daí valerá a pena deixar o desejo crescer.

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