Novas verdades, novo ano

 


I

Um ano em que novas verdades floresceram. Foi meu papel acolhê-las, dar-lhes um lar, aconchegá-las em alguma parte do pequeno pedaço de terra que seguro nas mãos. Os amigos, os parentes, os estudos, a alegria, o choro, a fé, o amor: de tudo foi sendo extraído o líquido dessa verdade que sorvo em goles lentos ou apressados, a depender da minha coragem, a depender da minha generosidade perante os mistérios que se anunciam, que adentram a vida sem pedir licença. E posso dizer que foi bom não ter tido medo das histórias encerradas e que é melhor ainda não temer pelas histórias que se iniciam, que timidamente me acenam com os seus primeiros raios de luz, ainda nessa alvorada que me toma pelo peito. Não será, daqui pra frente, o tempo das coerências, dos tratados lógico-sistemáticos, dos planos inabaláveis. Não será, tampouco, o cálculo das horas e dos segundos que apressa o deleite de me ver transformado naquilo que sou, naquilo que tenho de ser. Será, contudo, assim como foi na maior parte do ano que agora se finda, o tempo de deixar que o coração tome parte das coisas, de levar a sério o ditado que diz que Deus escreve certo em linhas tortas, de dar lugar ao Coração que se quer ver por todos os cantos, por todos os caminhos, por todos os corações. E a vida, assim, será muito maior do que a repetição enfadonha dos dias. Será mais do que as regras, os limites, as perfeições. Será muito grande essa vida, ainda maior do que a alegria que tanto cresceu e que tanto pulsou em mim ao longo do ano.

É verdade que é vasto, é verdade que vai durar.



II


Novamente um ano e outro ano
Em que a vida me impeliu
A escutar a fundo
Novas melodias.
Pois se me tomou de assalto
O amor que esvaneceu
Sem aviso e sem cartas,
E se me surpreendeu
Não ter pressentido
Ou sequer querido,
O silêncio que se anunciava,
Nada disso me calou.
Porque novamente um ano e outro ano
Em que a vida
Em poucas pinceladas,
De tanta gente me pintou.
E hoje são tantos os rostos
Que carrego ao peito,
E não houve penumbra
A me impedir de ser feliz
Pelo homem que hoje sou.
Ano vai, ano vem,
Mas permanece a vida,
Permanece a graça,
Ainda vale o amor.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Antissemitismo à luz de George Steiner

Deus contra Deus

O amigo dos afogados