Pelos mais de dez leprosos que eu também sou


(Foto tirada por mim, em uma praia do Pacífico. Algo existe em comum entre as profundezas do mar e os leprosos que descobrimos nas profundezas do que somos)

Os leprosos não são apenas aqueles às margens da sociedade, os destituídos e espoliados de bens. Se fosse assim, seria mais fácil: eu não seria um deles e poderia me tranquilizar um pouco mais.

Há, contudo, a lepra que ultrapassa a categoria sociológica e que me surpreende em meus momentos de oração. É a lepra que habita internamente, são os homens leprosos que têm morada em mim, que me causam vergonha e que procuro silenciar. São eles as minhas vítimas preferidas, excluídos e marginalizados pela minha insistência em consertos e ajustes definitivos.

Há o leproso ansioso, que planeja até mesmo o implanejável, à procura de respostas que não existem; há o leproso ressentido, aquele que se surpreende com as curvas da vida e que é vítima de sua própria memória; há o leproso entristecido, que tantas vezes apela a uma cama e a um cobertor; há o leproso solitário, que à revelia de tantas companhias se observa à frente de um vazio de onde ele será o único mergulhador.

Acontece que há alguém que os observa, os acolhe e os cura melhor do que eu mesmo. Jesus caminha pela estrada, atravessa a densidade do mundo, do espaço, do tempo, e chega no lugar onde os meus leprosos gritam, nos momentos em que não consigo contê-los, apesar de todas as constantes tentativas. Meus leprosos me surpreendem, é fato, conseguem alcançar o grito de fé que, antes, poderia me envergonhar: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós.

Pela primeira vez, meus leprosos me fazem chorar por aquilo que eles são: não “maus espíritos”, não “tentações” ou mesmo “insinuações” de algo maligno, mas tão somente homens feridos à espera de alguém que os escute e os acolha, todos eles cansados dos meus interditos silenciosos. Os meus leprosos, em sua miséria, têm a fé que eu não tenho nem em meus melhores momentos.

Me surpreendo com a forma que Jesus os observa. Engraçado, sinto até um pouco de inveja dos meus leprosos quando me dou conta de que a eles Jesus olha com mais carinho do que Ele jamais me olharia se eu me reduzisse a mero santo de altar. Jesus os ama porque são homens feridos, porque são homens que não puseram maquiagens antes do grito derradeiro, antes da última chance de misericórdia, eu já pronto para aniquilá-los definitivamente a qualquer instante.

E quanto eles se alegram ao se perceberem curados… o ansioso que não mais precisa de calendários, o ressentido que devolve sua memória ao Criador, o entristecido a quem a graça adocica a lágrima outrora amarga, o solitário que percebe a presença do Senhor em meio ao vazio que lhe é oferecido, agora um vazio que sustenta a vida e a preenche de sentido.

Para mim, nada disso foi fácil. Como é que os menores dentro de mim recebem tanto? Como podem ser os meus leprosos mais dignos do que as minhas projeções sobre mim mesmo, do que as minhas (pre)potências e meus projetos? Percebo, então, que quem corre o risco de não agradecer a cura sou eu, não eles. 

Mas não tem jeito. Os meus leprosos são a constante memória de que há, em mim, um rasgo na tessitura de quem eu sou, rasgo esse que permite, apesar de toda a densidade do mundo, que Jesus caminhe não apenas em direção aos meus leprosos, mas em direção a tudo o que eu sou e a tudo que me compõe. Jesus me alcança todo porque os meus leprosos denunciam o que em mim está rasgado, e quando eles gritam ao Senhor não pedem misericórdia apenas a eles: os leprosos me põem lado a lado no caminho de salvação, me querem salvo também; eles observam, com carinho, as feridas que eu gostaria de esconder.

Meus leprosos me acolhem. O Senhor os acolhe. Somos assim: uma acolhida só.

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